A literatura feita por
mulheres no Brasil
Nádia
Battella Gotlib
Este texto foi elaborado com base em pesquisa
desenvolvida por ocasião da minha permanência em Oxford, de abril a junho de
1998, como Visiting Fellow, junto ao Centro Brasileiro de Estudos Brasileiros
da Universidade de Oxford e como Senior Assistant Member (SAM) junto ao St.
Antony’s College, na mesma Universidade de Oxford.
SUMÁRIO
no núcleo da questão. 1
a visão dos viajantes 2
a visão da escritora e
crítica Lúcia Miguel Pereira 5
as primeiras escritoras: de
Tereza Margarida a Nísia Floresta 7
o periodismo feminino 11
a belle-époque 14
a eclosão do modernismo e o
romance social; 18
a poesia de Cecília Meireles 23
a prosa de Clarice Lispector 26
os estudos feministas 30
A literatura feita por mulheres no Brasil
Para aprender
o meu nome.
Cecília Meireles
Até que me
seja enfim revelado que a vida em mim não tem o meu nome.
Clarice Lispector
Construir e desconstruir nomes ou sistemas de
identidade feminina. Esta é uma via trilhada pelas mulheres que escrevem no
Brasil. E pode ser um possível caminho para se ler a produção cultural
literária feita por mulheres no Brasil.*
no núcleo da
questão
Sob tal perspectiva de leitura, Macabéa, a
personagem do breve romance intitulado A
hora da estrela, da escritora judia (russa/ucraniana)
e brasileira (nordestina/carioca)
Clarice Lispector[1], constitui um ponto-chave,
pois encarna, no seu estado de miserabilidade da identidade pessoal e social,
grande parte das mulheres no Brasil. Sem acesso a qualquer bem de produção,
essa personagem nordestina parte do sertão de Alagoas para uma grande capital,
a cidade do Rio de Janeiro, onde vive na mais completa miséria, sem ter acesso
à cultura de bens materiais, intelectuais e afetivos. Não tem condição de
construir uma história, já que, à margem dos trilhos que direcionam os
acontecimentos, a personagem vive da cultura de sucata: sobras dispensadas pelos outros, os que têm. Por isso resta-lhe apenas, por exemplo, a beleza rosada
de outra mulher, Marilyn Monroe, em foto recortada de página de revista velha
que ela prega na parede do seu quarto sujo de pensão.
No entanto, vive em estado de pureza. Não tem noção
nenhuma a respeito do mundo desumano que a cerca. E o que bem poderia ser,
noutro contexto de obra, uma “má consciência”, é, neste romance, um estado de
humanismo latente. Macabéa vive, incólume às perversidades do mundo, um estado
de condição humana utópica, que desconcerta o leitor: é ao mesmo tempo (sem
saber que estava sendo) um pouco cômica e trágica, mas, ao mesmo tempo, eficaz
luz de consciência crítica.
Essa moça vive como milhões de outras moças pobres e anônimas da cidade grande. Até que é atropelada e morre. E justamente logo depois que a cartomante lhe anunciara, mentirosamente, a realização de um sonho – o casamento com um rico e belo rapaz alemão. O detalhe de construção da cena fica por conta da contundente ironia de Clarice Lispector: Macabéa é atropelada justamente por um Mercedes Benz…Nessa hora da morte, caída na sarjeta da rua, lugar simbólico, aliás, de onde nunca saiu, Macabéa tem seu único momento de brilho e glória: a morte. É a sua hora da estrela.
Como os macabeus -
de que, aliás, Clarice Lispector, como judia, descende – e tal como os
nordestinos, que Clarice Lispector também de certa forma foi, pois na pobre
região do nordeste brasileiro viveu toda a infância até a puberdade – Macabéa
vive como imigrante, em permanente estado
de exílio e, concomitantemente, em permanente estado de resistência
contra forças adversas.
A autora Clarice Lispector e a personagem Macabéa
encarnam uma situação típica de impasse da mulher brasileira. Encontram-se numa
encruzilhada de opções diante do que um “destino de mulher” lhes confere e do
que a prática de um determinado olhar
feminista revê, seja da perspectiva ingênua e naturalmente humanizada, como
em Macabéa, seja da perspectiva lucidamente desconstrutiva, como em Clarice,
embora a autora tenha sempre negado tal procedimento como compromisso de
vinculação política. De qualquer forma, ambas se encontram num momento crítico da história do contexto de vida
da mulher no Brasil, promovido por preconceituosas e injustas desigualdades sociais, pela consideração
das diferenças de sexo e pelas
múltiplas implicações das questões de gênero,
problematizadas no corpo mesmo da representação ou construção simbólica, sob a
forma da metalinguagem em arte literária.
Pretende-se, neste texto, determinar alguns momentos
mais significativos dessa história da literatura brasileira feita por mulheres,
bem como da história dos estudos referentes à mulher no campo da literatura. A
exposição parte da seleção de determinadas situações
experimentadas pelas mulheres nesse percurso de construção e desconstrução de imagens de si, examinando-as na sua condição
de personagens, na sua condição de narradoras e autoras e na sua condição de
pesquisadoras e críticas da literatura.
a visão dos
viajantes
A condição de subordinação da mulher brasileira,
numa sociedade patriarcal de passado colonial, tal como noutros países da
América Latina colonizados por europeus, deixou as suas marcas. Talvez a mais
evidente delas seja a do silêncio e a de uma ausência, notada tanto no cenário
público da vida cultural literária, quanto no registro das histórias da nossa
literatura.
Num dos artigos pioneiros no
sentido de mapear as “Características da história da mulher no Brasil”, escrito
por Maria Beatriz Nizza da Silva, a autora afirma: “não temos acesso direto ao
discurso feminino senão tardiamente no século XIX e até então temos de nos
contentar em conhecer os desejos, vontades, queixas ou decisões das mulheres
através da linguagem formal dos documentos ou petições, manejada pelos homens.
A linguagem masculina dos procuradores e advogados sobrepõe-se, deformando-a, a
uma linguagem feminina original e inatingível.”[2]
Também os depoimentos de viajantes que estiveram no
Brasil no século XIX registram a presença das mulheres que aqui viram – ou não
conseguiram ver. Alguns destes textos, reunidos pela historiadora Miriam Moreira
Leite, referem-se ao isolamento da mulher no meio doméstico, se mulher branca;
e aos vários ofícios que exercia, se mulher negra. Realçam, em ambos os casos,
pelo menos em início do século XIX, o baixo rendimento cultural, já que não
tinham acesso à educação que lhes garantisse a leitura e a escrita.
É o que afirma, por exemplo, um dos viajantes, B.
Debret: “Desde a chegada da Corte ao Brasil tudo se preparara, mas nada de
positivo se fizera em prol da educação das jovens brasileiras. Esta, em 1815,
se restringia, como antigamente, a recitar preces de cor e a calcular de
memória, sem saber escrever nem fazer as operações. Somente o trabalho de
agulha ocupava seus lazeres, pois os demais cuidados relativos ao lar são
entregues sempre às escravas.”[3]
Pouco tempo antes, um comerciante inglês, John
Luccock já observara que, entre as mulheres da classe alta e média, e
especialmente as mais moças, “a ignorância entre elas predominava”, o que era
estimulado, pois “não se desejava que escrevessem” para que não fizessem “um
mau uso dessa arte”. Observa ainda que tais mulheres viviam “muito mais
reclusas que em nossa própria terra.”[4]
E é o próprio Debret que nota mudanças a partir de
1820, quando a educação começou a tomar impulso de tal modo que “não é raro
encontrar-se uma senhora capaz de manter uma correspondência em várias línguas
e apreciar a leitura, como na Europa.”[5] Quanto às mulheres negras
escravas, ocupavam-se do trabalho em âmbito doméstico ou em oficinas, sem
receberem qualquer instrução, numa situação que haveria de se prolongar por
muito tempo. Eram artesãs: faziam flores, rendas, roupas. Ou eram aguadeiras,
quitandeiras, amas-de-leite. Conforme observa Ida Pfeiffer, em 1846, “são
mantidos de propósito numa espécie de infância (…) pois o despertar desse povo
oprimido poderia ser terrível” e então “a população branca poderia tomar o
lugar que é hoje ocupado pelos infelizes negros”.[6]
A primeira legislação referente à educação feminina
apareceu apenas em 1827, assegurando os estudos elementares. E o ingresso de
mulheres em escola normal de São Paulo aconteceu apenas em 1876, embora desde
os anos 40 essa escola recebesse alunos de sexo masculino.[7] Mesmo em meados do século
XIX, portanto, a mulher permanece isolada de ambiente cultural. E permanece
isolada até do convívio de pessoas na sua própria casa. O Conde de Suzannet, em
viagem ao Brasil, no ano de 1845, observa que, se no Rio “as mulheres tomam
parte da vida social”, “no interior, uma pessoa pode passar semanas inteiras
sob um teto sem nem ao menos entrever a mulher e as filhas do dono da casa.”[8] Outras mulheres, caso
recusassem casamento de conveniência com rapaz escolhido pela família, eram
depositadas no convento, como o convento da Ajuda, e lá ficavam às vezes até à
morte, conforme relata o viajante Thomas Ewbank, em 1846.[9]
Em 1865, o viajante Agassiz reitera: “o nível de
ensino dado nas escolas femininas é pouquíssimo elevado”, pois se desenvolve
dos sete ou oito aos treze ou quatorze anos, quando, então, são retiradas dos
colégios e logo se casam. Embora tenha conhecido mulheres de “alta cultura”,
considera que são exceções, pois, “efetivamente, nunca conversei com as
senhoras brasileiras com quem mais de perto privei no Brasil sem delas receber
as mais tristes confidências acerca de sua existência estreita e confinada.”[10] E complementa:
“Não há uma só mulher brasileira que, tendo
refletido um pouco sobre o assunto, não se saiba condenada a uma vida de
repressões e constrangimento. Não podem transpor a porta de sua casa, senão em
determinadas condições, sem provocar escândalo. A educação que lhes dão,
limitada a um conhecimento sofrível de Francês e Música, deixa-as na ignorância
de uma multidão de questões gerais; o mundo dos livros lhes está fechado, pois
é reduzido o número de obras portuguesas que lhes permitem ler, e menor ainda o
das obras a seu alcance escritas em outras línguas. Pouca coisa sabem da
história do seu país, quase nada da de outras nações, e nem parecem suspeitar
que possa haver outro credo religioso além daquele que domina no Brasil(…) Em
suma, além do círculo estreito da existência doméstica, nada existe para elas.”[11]
Portanto, o viajante ou não vê a mulher, ou a vê,
mas naquilo que, para ela, não existe. Tal olhar, do que vem de fora, estranha
e critica a reclusão social e a ignorância intelectual da mulher, ressaltando
nela o seu não-estar (ausência no lugar social de prestígio) e o seu não-saber
(falta de instrução). Assim sendo, o que efetivamente existia para a mulher, ou
seja, o universo feminino que se desenrolava nesse espaço doméstico, para além
da descrição da superfície dos gestos vistos como vitimizados, permanece
intocado pelo olhar estrangeiro masculino.
a visão da
escritora e crítica Lúcia Miguel Pereira
Na tentativa de analisar o contexto cultural da
mulher brasileira de modo sistemático, a escritora brasileira Lúcia Miguel
Pereira, que escreveu quatro romances problematizando a questão da mulher no
Brasil no século XX e que foi também uma estudiosa e crítica da literatura[12], escreveu artigo publicado
em 1954, intitulado “As mulheres na literatura brasileira”, em que descreve a
condição feminina no Brasil[13].
Aí percorre vários textos que se referem ao papel da
mulher na sociedade brasileira, tentando fazer no Brasil o que Virginia Woolf
fizera trinta anos atrás na Inglaterra, com as
conferências de 1928, depois revistas e publicadas com o título de A room of one’s own[14]. A ficcionista e crítica,
que lera e cita a Virginia Woolf da conferência dirigida para moças de um
colégio inglês, procura nomes de escritoras brasileiras nos volumes de
histórias da nossa literatura e recorre a algumas obras de escritores renomados
para examinar como a mulher aparece aí representada.
Nas histórias de literatura brasileira, encontra
poucos nomes. Sílvio Romero, na sua História
da Literatura Brasileira, de 1882, mencionou apenas sete. E Sacramento
Blake, no seu Dicionário bibliográfico editado em 1889, menciona 56. As
referências poderiam se estender a outras histórias de literatura.
Além da ausência da mulher no registro, feito por
homens, de produções literárias ao longo da história de nossa literatura, a
pesquisadora detém-se em alguns exemplos de ausência da mulher no campo social
das atividades artísticas, detectando preconceitos que norteiam o comportamento
da mulher no Brasil.
Da obra Compêndio
do Peregrino da América, escrita por Nuno Marques Pereira[15], de nacionalidade
provavelmente portuguesa, a crítica cita trecho em que o narrador dá conselhos
aos homens: que eles não permitam que mulheres “filhas, irmãs, parentas e
pessoas honradas de sua obrigação, que estiverem debaixo de sua proteção, vão
ver comédias nem semelhantes farsas (…)”, pois “sairão de tais funções
distraídas e com pensamentos tão estragados que não se poderá reformar (tais
pensamentos) em muitos dias”.[16] Aconselha também a
proibição do teatro e da ‘poesia cantada’, como as modinhas de Domingos Caldas
Barbosa, “porque grande força faz no sexo feminino”, o qual consegue “perverter
e abrasar em um incêndio amoroso”.[17]
Embora reconheça exceções, o quadro geral da
condição da mulher no século XVIII prolonga-se até o século XIX, que a
escritora bem conhecia, enquanto leitora de Eça de Queirós e de Machado de
Assis; deste último, fez, aliás, renomada biografia.[18] Um agudo ceticismo aparece
no comentário que a escritora faz referente às mulheres dos oitocentos.
“Dessas doces donzelinhas, ariscas e sonsas, das
ácidas donzelas que, não encontrando marido, se agregavam a parentes, em suas
casas vegetando quase como aias, dessas casadas tementes aos maridos ou sorrateiramente
os traindo, dessas matriarcas decididas, não raro despóticas, compunha-se a
sociedade real, e a que povoava a ficção”.[19]
E depois do romantismo e do realismo, já no final do
século XIX, segundo ainda a mesma escritora, tudo parece mudar. Mas não muda.
As mulheres tornam-se mais ousadas na valorização do amor físico, que substitui
o amor sentimental, mas não há, aí, revolução. Esses casos, de Evas
arrebatadas, são considerados mórbidos e excepcionais. Não se altera a
estrutura da família, baseada na continência
feminina.
Nos seus próprios romances, escritos nos anos 40 e
50 do século XX, a escritora problematiza a questão dos papéis sociais da
mulher, detectando preconceitos e censuras, que causam frustrações e
retrocessos no percurso das opções por comportamentos e atitudes a serem
assumidas pela mulher numa sociedade fechada e altamente codificada. No
entanto, a visão que tem a escritora ao acompanhar a história da mulher na
literatura brasileira ao longo dos séculos – do século XVIII aos inícios do
século XX – parece se pautar por uma crítica severa não dos mecanismos
cerceadores, mas dos procedimentos adotados pela mulher imune a ações de uma
prática de mudança. O discurso crítico parece crispado por um certo rancor, na
denúncia impaciente dos tipos de
mulheres oitocentistas que seguem, com disciplina, os papéis institucionalmente
impostos e aceitos.
Faltaria, ainda, reconhecer uma outra linhagem de
mulheres militantes dentro da literatura (como personagens ou como autoras) e
da sociedade (na militância política através sobretudo do veículo jornalístico)
que desenvolveram trabalho emancipatório preparador das condições que
propiciariam, no século XX, a implementação e solidificação de um movimento que
poderíamos chamar de estética feminista.
as primeiras
escritoras: de Tereza Margarida a Nísia Floresta
São do século XIX os primeiros textos escritos por
mulheres brasileiras que têm alguma divulgação entre o público letrado. Até lá,
nos tempos coloniais, a mulher nada escreve, ou escreve mas os textos não
aparecem, ou aparecem como exceção, entre maioria quase absoluta de textos
escritos por homens. A razão é simples: apenas os homens tinham acesso à
educação formal, fornecida não em universidades – cuja criação em terras
brasileiras foi proibida pelo reino português – mas em seminários de várias
ordens religiosas.
Assim mesmo, nem todos podiam freqüentar os
seminários. Em certos casos, lá estudavam desde que não fossem “pardos”.
Poderiam também, sobretudo a partir da expulsão dos jesuítas, em 1759, receber
as chamadas aulas régias, educação oficial com apoio do rei português, mas em
“ensino escolar eloqüente, retórico e imitativo – e, de resto, elitista e
ornamental”, numa educação “voltada para a perpetuação de uma ordem patriarcal,
estamental e colonial”.[20] Havia, ainda, a
possibilidade do autodidatismo, forma de educação não formal, em ambiente
doméstico. E ainda em território doméstico, havia distribuição da matéria de
acordo com o sexo. De modo geral, ao homem era de praxe se “ensinar a ler, a
escrever e contar”, e à mulher, “a coser, lavar, a fazer rendas e todos os
misteres femininos”[21], que incluía a reza. Se
muitas mulheres, sobretudo irmãs “fêmeas” e sem dote, eram depositadas no
convento, muitas também passaram a manter escolas no próprio espaço privado, aí
ensinado leitura, música, corte e costura.[22]
No mais, aparecem nomes isolados de escritoras. É o
caso de Tereza Margarida da Silva e Orta, filha de um português e uma
brasileira, que viveu desde os cinco anos em Portugal. Escreveu obra de cunho
moralista, intitulada Aventuras de
Diófanes, considerada por alguns como o primeiro romance brasileiro, já que
a escritora nasceu no Brasil, e, por outros, como obra portuguesa, já que a
autora foi quando menina para Portugal e nunca mais voltou ao Brasil.
O livro, publicado em Portugal em 1752 e que teve
outras edições, portuguesas e brasileiras, traduz o gosto clássico, sob a
inspiração das Aventuras de Telêmaco,
de Fénelon. Revela erudição da mulher que teve acesso à educação, iniciada em
Portugal, junto às freiras do convento das Trinas, onde aprende, por exemplo,
além do desenho e bordado, idiomas antigos e modernos, letras, história,
música, astronomia, filosofia, teologia. E revela também dose de experiência de
vida movimentada, de mulher corajosa que enfrenta certos preconceitos. A moça,
contrariando a vontade da família, que, aliás, fez fortuna no Brasil, foge de
casa para se unir ao jovem e pobre professor alemão. Por isso é deserdada,
cabendo a fortuna do pai ao irmão, também escritor, Matias Aires da Silva de
Eça, autor de Reflexões sobre a vaidade
dos homens, publicado em Lisboa também em 1752. Com 12 filhos, fica viúva,
em 1753. É perseguida pelos jesuítas, rebelando-se contra eles no texto Relação abreviada. Fica, no entanto, e por
causas desconhecidas, presa durante sete anos, até a queda do Marquês de
Pombal, quando morre D. José e sobe ao trono D. Maria I. Já livre da prisão,
vive na pobreza, em casa de um cunhado, até morrer, em 1793.[23]
Tais circunstâncias de vida comprovam o contexto
europeu em que a escritora se formou e escreveu. Entre o colonizador e o
colonizado não existe ainda, praticamente, nenhum embate, pois o que a
escritora parece carregar da terra é apenas, além da fortuna do pai, de quem,
aliás, nada recebeu porque foi deserdada, a marca de uma nacionalidade em cinco
anos de vida aparentemente diluídos na marcante experiência de vida européia.
Num contexto de cultura colonial em que a fundação
de universidades era proibida e em que o analfabetismo imperava, em que as
tipografias passam a funcionar livremente apenas depois de 1808, quando a
Família Real chega ao Brasil, os textos feitos por mulheres, se existiram,
devem ter circulado oralmente: se assim foi, encontram-se na tradição da poesia
e contos e cantos populares, território de cultura que merece ainda cuidadosa
investigação. Outros textos por elas escritos fariam parte de um contexto de
cultura bem específico: o espaço doméstico registrado nos livros de receitas,
diários, cartas, simples anotações, orações, pensamentos, lista de deveres e
obrigações, que também, efêmeros, quase na sua grande maioria, desapareceram.
Quanto aos textos de caráter mais artístico, constituiriam exceção. E são
poucas as exceções. Uma delas refere-se aos textos escritos por Nísia Floresta
Brasileira Augusta, considerada a primeira feminista brasileira.
Nascida no Rio Grande do Norte, no nordeste, em
1810, a menina Dionísia Gonçalves Pinto[24]
logo passa por uma primeira e malfadada experiência de casamento, aos 13 anos
de idade. Mora também em Recife, onde o pai é assassinado, e onde se casa
novamente, com um acadêmico liberal. Recife era, nesta fase de Independência em
relação ao trono português, grande centro de comércio açucareiro e também palco
de sucessivas rebeliões que incentivavam a imprensa para a divulgação das
propostas liberais. E foi lá que a então jovem escritora iniciou uma militância
política e jornalística, de caráter republicano, favorável à liberação dos
escravos e à luta pelos direitos da mulher.
Um dos seus mais importantes trabalhos é uma
adaptação do livro da inglesa Mary Wollstonecraft (ou Mistriss Godwin), o livro
Vindication of the rights of woman,
que intitulou Direito das mulheres e
injustiça dos homens, publicado em 1832, que assina já como Nísia Floresta Brasileira
Augusta.[25] Segundo Constância Lima
Duarte, a autora faz uma “tradução livre”, adaptando o texto às circunstâncias
da realidade brasileira, tendo como resultado “o texto fundante do feminismo
brasileiro”. Afirma a crítica:
“Nísia não realiza, propriamente, uma tradução do
texto da feminista. Ela realiza, sim, um outro
texto, o seu texto sobre os
direitos das mulheres. Mary Wollstonecraft lhe dá a motivação ao colocar em
letra impressa questões pertinentes à mulher inglesa, voltadas naturalmente para
o público de seu país. Nísia como que realiza uma “antropofagia libertária”. E
poderíamos ainda acrescentar: não como opção, mas até como fatalidade
histórica. Na deglutição geral das idéias estrangeiras, era praxe promover-se
uma acomodação de tais idéias ao cenário nacional. É o que ela faz. Assimila as
concepções de Mary Wollstonecraft e devolve um outro produto, pessoal (…)
extraído da própria experiência (…)”.[26]
Assim sendo, há pontos em comum: “tanto na
denúncia da mulher como classe oprimida como na reivindicação de uma sociedade
mais justa, em que ela seja respeitada e tenha os mesmos direitos. Também são
pontos comuns as denúncias da superioridade feminina apoiada na força física, a
educação como o meio eficaz de promoção feminina e o aparato filosófico de
feição iluminista. No mais, os textos se distanciam tomando cada qual o seu
rumo, segundo as motivações das autoras, o público a que se destinavam e as
peculiaridades da condição feminina num e noutro lugar”.[27]
A escritora inglesa menciona a necessária
“revolução”, incluindo a exigência de uma independência econômica, mais tarde
configurada no “quarto próprio” da também inglesa Virginia Woolf. Já a
brasileira reivindica direitos para mostrar que as mulheres têm também grandeza
de alma e que o sexo feminino “não é tão desprezível quanto os homens querem
fazer crer”.[28] Conforme explicita Constância Lima Duarte, esta separação entre educação e emancipação marca a posição ambígua da mulher brasileira, posição,
aliás, que teria continuidade no final do século XIX e até nos inícios do
século XX: a mulher admite e empreende o movimento de luta pela educação sem
admitir mudança nos papéis sociais tradicionais da mulher enquanto “mãe” e
“rainha do lar”.[29]
A “tradução livre” da obra da escritora inglesa
não é atitude isolada e inconseqüente. Pelo contrário, faz parte de uma longa
carreira dedicada às letras e à educação da mulher. Depois de morar no sul do
país, em Porto Alegre, onde fica viúva, a escritora muda-se, com suas duas
filhas, para o Rio de Janeiro, onde funda uma escola que mantém durante
dezessete anos e que foi severamente criticada por suas propostas educacionais
avançadas. E dá contiuidade à sua produção literária, reunindo objetivos
pedagógicos, moralistas e ficcionais. Com tal intenção, publicou Conselhos à minha filha, em 1842, que
teve muitas edições, e Fany ou O modelo
das donzelas, de 1847. Escreveu também um poema indianista, A lágrima de um caeté, em 1849, baseado
na luta entre brancos e índios que gerou a Revolução Praieira, em Pernambuco,
em fevereiro de 1849, e em que, contrariando o estereótipo do bom selvagem,
retrata o índio dividido e potencialmente rebelde.
No início de 1850, já na França, freqüenta os
cursos e conferências pronunciadas pelos positivistas, incluindo aí Auguste Comte.
Volta ao Brasil em 1852 e, no ano seguinte, são publicados artigos sobre
educação feminina, o Opúsculo Humanitário,
no Rio de Janeiro.[30] Para a autora, a educação vincula-se ainda a um projeto de realização
pessoal da mulher no universo familiar e doméstico. Mas anuncia também
propostas avançadas para a época: a educação deveria ser dirigida a todas as
mulheres, incluindo aí as pobres, como meio de livrá-las da miséria,
proclamando a necessidade, por si só já revolucionária, de “que todas sejam bem
educadas em suas respectivas situações”.[31]
Em 1856 viaja novamente para a Europa e
aproxima-se de Auguste Comte, com quem mantém correspondência que traduz a
amizade existente entre os dois. Publica ainda tanto o relato de suas viagens
pela Alemanha, Itália e Grécia, quanto proclama, em visão ufanista e saudosa,
as belezas da cidade do Rio de Janeiro (“Passeio ao Aqueduto da Carioca”), ou
as belezas das cidades de Recife e Olinda (“O Brasil”), este último, numa
primeira edição italiana, em Florença, com mais um ensaio sobre “A Mulher” e
mais três textos, num volume intitulado Cintilações
de uma alma brasileira, recentemente editado em português.[32] Volta ao Brasil no decorrer da década de 70. Mas permanece na Europa até
morrer, com 76 anos, em 1885.[33]
A obra de Nísia Floresta, de variado assunto e
gênero, mostra sensibilidade e lucidez ao abordar não só a beleza da terra
brasileira e de tantos países europeus, mas a rebeldia do índio, a educação da
mulher e a luta pelos seus direitos, mantendo um fio de coerência intelectual e
demarcando, assim, um território preciso e seu, no espaço de construção da
mulher brasileira a caminho da sua emancipação cultural.
o periodismo
feminino
Um dos veículos dessa emancipação, que possibilitou
a divulgação dos textos das mulheres, tanto literários quanto mais propriamente
políticos, foi a imprensa. E, dentro da imprensa, o periodismo feminino. O
primeiro deles foi provavelmente, segundo Dulcília S. Buitoni, o jornal carioca
O Espelho Diamantino, lançado em
1827.[34] Desde então, outros jornais
feitos por mulheres foram fundados com a intenção de tratar de questões ligadas
às mulheres e, por vezes, problematizando questões importantes de caráter
político, incluindo aí o direito ao voto.
Mas a matéria era, em geral, variada. Um dos
pioneiros, intitulado Correio das Modas
(1839-1841), trazia “bastante literatura, crônica de bailes e teatros e
figurinos pintados à mão, vindos da Europa”.[35] E o Jornal das Senhoras, editado no Rio de Janeiro, numa primeira fase,
por Joana Paula Manso de Noronha, em 1852 anunciava como objetivo colaborar
para a educação da mulher, livrando-a do peso de ser considerada, pelo homem,
“como sua propriedade”.[36]
Na década de 70, em 1873, é fundado o primeiro
jornal feminista, O Sexo Feminino[37], com o objetivo de defender
a educação da mulher. Durante a campanha abolicionista, participaram de
sociedades ora simplesmente angariando fundos, ora escrevendo panfletos, ora
proferindo palestras, como é o caso da pernambucana Maria Amélia de Queiroz,
que em 1887 faz conferência e mais tarde colaborarará no jornal A Família, editado e publicado por
Josefina Álvares de Azevedo, este, mais firme nas reivindicações, chegando a
defender o divórcio. Ligada ao movimento de campanha pelo sufrágio feminino,
Josefina Álvares de Azevedo escreveu peça de teatro intitulada O voto feminino, em 1893, que foi
representada no Teatro Dramático do Rio de Janeiro.
E tem regularidade também, uma “revista literária”
publicada na virada do século, em São Paulo, intitulada A Mensageira, dirigida por Presciliana Duarte de Almeida, de 1897 a
1900.[38] A revista, centrada em
questões referentes à mulher, tem como eixo das considerações a necessidade da
educação feminina, no sentido de se proclamar, nas palavras da diretora, “a
igualdade na diferença”. Traduz posições mais conservadoras, na defesa de uma
educação da mulher que não interfira no papel de mãe e esposa, não aceitando,
conforme afirmação de um colaborador da revista, “nem a mulher que vota, nem a
mulher que mata!”.[39] E insere também artigos mais
avançados, que defendem o voto feminino e o trabalho como instrumento de
independência econômica. Um deles chega a defender um feminismo político
engajado a uma prática socialista, como é o caso do artigo da escritora
portuguesa Maria Amália Vaz de Carvalho, escrito e publicado na revista por
ocasião do encerramento do Congresso Internacional das Mulheres, em Londres, em
agosto de 1899.[40]
A importância dessa revista deve-se, sobretudo, à
preocupação com a formação de um grupo ativo de intelectuais e artistas
preocupado com a construção de um contexto de cultura literária. E os textos aí
publicados tendem, na maioria, para a feição artística, na linha de um
sentimentalismo romântico, por vezes eloqüente, em sonetos e demais poemas das
escritoras; e na linha de estilo leve
de crônicas alertas ao cotidiano da vida brasileira e, ao mesmo tempo, à
literatura e ao feminismo internacional. Essa visão dupla causa, por vezes,
contrastes curiosos. Em seção intitulada “Carta do Rio”, uma colaboradora
lamenta, em tom solene, a morte do grande escritor francês Alphonse Daudet e,
em seguida, comenta o aparecimento de uma “onça pintada lá para os lados do
Irajá”…[41]
A publicação revela a existência de um público
feminino não radical, que incorpora na revista colaboradores do sexo masculino
que publicam aí textos literários e artigos de opinião. E revela também a
existência de um grupo de intelectuais e artistas colaboradores que trazem
dados de informação sobre a literatura feminina que se fazia nas várias regiões
do Brasil da época, funcionando pois como um centro irradiador de informação a
respeito da situação da literatura feminina da época.[42]
O tom da revista é o da literatura da belle-époque
brasileira: leve, aparentemente descontraído, por vezes mais crítico e até
polêmico, com certa ironia sutil. Os textos literários traduzem esse mesmo tom
de época, situando-se entre um sentimentalismo de tradição romântica, um rigor
formal de índole parnasiana e uma etereidade diáfana, típica da arte
simbolista. No campo político das reivindicações, mostra a mulher entre os
‘novos’ rumos trazidos pelos movimentos emancipatórios liberais, com o
abolicionismo e o republicanismo, mas atrelada ainda aos laços fortes de uma
tradição burguesa calcada no exclusivismo dos seus papéis sociais domésticos.
Colaboram na revista tanto escritoras da segunda
metade do século XIX, provenientes da era romântica, como Narcisa Amália,
quanto escritoras que continuarão a escrever pelo início do século XX, até a
segunda década, na fase do pré-modernismo brasileiro, como Júlia Lopes de
Almeida.
Nesta segunda metade do século XIX, portanto, as
mulheres ganham progressivamente espaço cultural, ainda que de modo um tanto
acanhado e quase que sem repercussão nacional, sobretudo se se encontram em
regiões afastadas da região sudeste (do Rio de Janeiro e de São Paulo, por
exemplo). Além disso, a maioria das mulheres escritoras da época acumula à
atividade da escrita, um trabalho didático, mais ou menos profissionalizado, e
um trabalho jornalístico, na divulgação das propostas de teor feminista, mais
ou menos politicamente engajado.
É o caso de, por exemplo, Maria Firmina dos Reis,
professora de família humilde, que escandalizou cidade do interior do Estado
quando fundou, em 1880, uma sala de aula mista, formada por meninos e meninas.
Além de poesia e de romances que tratam da relação entre brancos e índios,
publicou também um romance intitulado Úrsula,
em 1859, em São Luís (do Maranhão). Se o enredo segue o padrão romântico, de
amor, incesto e morte, o romance anuncia uma nova postura da mulher diante de
problemas sociais, denunciando, de uma perspectiva abolicionista, os horrores
do escravismo. Sob esse aspecto, a escritora avança ao defender certos valores,
como por exemplo, a legitimidade da rebelião do filho bacharel em relação ao
pai tirano; o seu projeto de se casar com uma jovem sem qualquer dote e a sua
amizade por um escravo. E avança também quando atribui ao escravo uma forte
personalidade.[43]
Persiste, no entanto, ao longo do século, a idéia
preconceituosa de que à mulher não compete interferir nos assuntos de política.
Narcisa Amália (de Oliveira Campos), por exemplo, que também foi professora, no
Rio de Janeiro, e que publicou seus poemas em 1872, em volume intitulado Nebulosas, defendia idéias liberais
democráticas, abolicionistas e republicanas, e por isso recebeu críticas
severas. Guimarães Júnior, em carta a amigo, de 1873, referindo-se à escritora,
afirma: “em suas composições políticas parece que deixa de lado a alma, para
tomar a baioneta, cousa bem pouco feminina”. [44] Também C. Ferreira, no Correio do Brasil, do Rio de Janeiro, em
1872, já se pronunciara: “Mas perante a política, cantando as revoluções (…),
endeusando as turbas, acho-a simplesmente fora de lugar (…) o melhor é deixar
[o talento da ilustre dama] na sua esfera perfumada de sentimento e singeleza”.[45]
Mas as mulheres consideradas como fora de lugar já haviam, a essa altura,
definido uma linha de ocupação do seu espaço próprio. Sob tal perspectiva,
Délia, pseudônimo da gaúcha Maria Benedita Bormann, defende as propostas da
‘nova mulher’, naquele momento em voga na Europa e Estados Unidos: sexualmente
independente, sem aceitar o casamento como única solução de vida e felicidade,
com oportunidades de estudo e de profissionalização, com projetos de satifação
dos próprios desejos. A reação é imediata, por parte de médicos e sanitaristas,
por exemplo. Mas a escritora, também abolicionista, tem participação incisiva.
E a sua personagem também. No romance Lésbia,
a mulher, depois de se separar de marido tirano, escreve sua própria história:
emerge a mulher escritora no repertório dos enredos dos romances feitos por
mulheres .[46]
a belle-époque
No final do século XIX e no início do século XX, em
pleno período da belle-époque, tendências de antes (romantismo, realismo,
parnasianismo, naturalismo) e tendências mais recentes (simbolismo)
misturam-se, num período caracterizado, sobretudo, pela ocorrência simultânea
de vários ‘ismos’, sob novas configurações: neo-romantismo, neo-parnasianismo,
neo-realismo, neo-simbolismo, pré-modernismo, como num ensaio de concomitância
de tendências a serem mais tarde praticadas no corpo mesmo de um só discurso,
no período do pós-modernismo.[47]
Encontram-se, pois, nesse período, romances de
tradição romântica, na linha folhetinesca da “profusão episódica”, como é o
caso de A Divorciada, da cearense
Francisca Clotilde, professora, poeta e periodista.[48] Neste, a personagem
principal se dilacera em sucessivos sofrimentos, vítima de marido crápula,
cujos defeitos justificam a opção da mulher pelo divórcio, com o objetivo de se
casar com o homem que ela realmente ama.
No entanto, mais do que a filiação a uma linhagem de
folhetins, o que interessa neste romance é justamente a construção da
personagem que, premida pela infelicidade, chega a admitir a idéia do divórcio,
viabilizando a ruptura de uma linha de relação conjugal formal até então
considerada indissolúvel. Mas a liberação do laço matrimonial ainda não é tão
simples assim. Como resolver o conflito entre a tradição dos costumes – a união
oficial, e o desejo de nova união – a
satisfação do desejo da mulher, casando-se com o homem digno do seu amor e que,
por feliz coincidência, ela ama? A escritora encontra uma solução: o marido
morre e ela, viúva, pode então casar-se com o homem amado.
Nessa linha de enredo traçado nos meandros das
miudezas da vida familiar burguesa - na cidade grande ou no meio rural
pitoresco - , desenvolve-se a prosa de Júlia Lopes de Almeida (1862-1934), em
mais de 40 anos de atividade literária dedicados tanto à ficção quanto ao
jornalismo.
Nas dezenas de livros publicados (entre romances,
contos, crônicas, literatura infantil e pouco teatro) a escritora nos fala de
um lugar cultural já conquistado pela mulher. O tema aparece já nos seus primeiros
versos e no primeiro artigo publicado, em 1881, graças ao auxílio do pai, num
jornal de Campinas, sobre uma artista de teatro. Mais acentuadamente,
desenvolve-o a partir de 1886, quando publica seu primeiro livro, e ao longo de
sua colaboração na imprensa, na revista A
Semana, no Rio de Janeiro. Engaja-se, a certa altura, na luta pela
emancipação da mulher integrando o grupo da Legião da Mulher Brasileira,
liderado por Bertha Lutz. Sua atividade intelectual manifesta-se também no
território da vida pessoal: casa-se com um escritor português, Filinto de
Almeida; participa, com o marido, das reuniões para fundação da Academia
Brasileira de Letras, embora o marido para lá entre e ela, não; escreve texto
com o marido, usando o pseudônimo de “Filinto”; e terá filhos escritores:
Afonso, Albano, poetas; e Margarida Lopes de Almeida, célebre declamadora.
Os romances, narrados com simplicidade e de modo
agradável, seguem esquemas de enredo calcados no amor, por vezes trágico: é o
caso de A viúva Simões, de 1897, em
que duas mulheres, mãe e filha, amam o mesmo homem e enlouquecem. Noutros,
aborda pontos que atestam sensibilidade diante da realidade brasileira:
“histórias de nossa terra” e da vida rural na roça, por exemplo, ou a expulsão
dos pobres das zonas mais centrais da cidade, no Rio de Janeiro.
A sua posição em relação aos papéis sociais da
mulher é ambígua: de um lado, defende-a enquanto mãe e esposa[49]; de outro, investe no apoio
a sua capacidade de trabalho e a sua força para gerir recursos que lhe garantam
uma sobrevivência e autonomia financeira. Embora ciente da encruzilhada de
opções da mulher – entre formas mais tradicionais e outras mais inovadoras de
atuar profissionalmente - a escritora mais levanta que problematiza tais
questões. Mostra, por exemplo, sensibilidade diante das diferenças e
discriminações sociais, defendendo o abolicionismo. E realça o contraste cruel
entre a riqueza da oligarquia endinheirada do café e a miséria dos escravos e
colonos imigrantes, como no romance A
família Medeiros, de 1892.
É o caso, também, do volume de crônicas intitulado Eles e Elas, publicado em 1910,
significativo enquanto tradução de clima de época, na leveza de tom típico da
segunda década do século. Neste, a narradora expõe a relação homem/mulher no
território da ordem social brasileira, a partir de um recurso que usa com rara
habilidade: o de monólogos e diálogos - recurso que permite a fala, direta, das
mulheres e homens a respeito dos seus próprios problemas, na maioria,
conjugais.
Partindo sempre de situações banalíssimas do
cotidiado, surgem os detalhes de comportamento, em tom bem humorado, usados
teatralmente, a garantirem a eficácia do texto como uma espécie de comédia de
costumes. Neste contexto é que surge uma de suas personagens, a mulher consciente
mas inoperante, que se reconhece como “boneca de carne e osso” e “mais nada”,
mas sem força para se livrar dessa dependência. E mais: sem nem mesmo ter
palavras para se fazer entender pelo marido…[50]
Daí o tom duplo que estes contos/crônicas têm: aparentemente, ligeiros, quase
levianos, mas, ao mesmo tempo, um tanto trágicos, já que, por detrás da fala
conformada da mulher, que apenas se
distrai, entre compras e chás, entre as curvas e ornamentos do cenário
belle-époque, pesa uma certa amargura de situação mal resolvida.
O interesse dessa ‘visão de dois’ reside, ainda, no
modo como o livro se desenvolve, como se fossem sketches que se sucedem, em diferentes situações, com alternância
de pontos de vista: ora é a mulher, ora é o homem que fala. Mas paira a voz da
autora-narradora, que usa o ridículo para se manifestar contra certos papéis
sociais na relação homem/mulher. Um dos seus personagens, por exemplo, um
homem, quando chega em casa e não acha a mulher... clama contra o feminismo.
Mas, ao mesmo tempo, ele aparece em cena sendo ridicularizado pelo narrador,
que bem poderia ser a mulher escritora Júlia, aí implícita.
A narradora parece seguir o preceito que anuncia
logo no início do livro e como epígrafe: no livro o leitor encontrará mínimos
detalhes insignificantes, mas a vida compõe-se de detalhes, como a hora se
compõe de minutos. E parece praticar o “defeito” de um dos seus personagens: o
de “esquadrinhar intenções e idéias através dos ditos mais simples ou das
expressões mais banais...”.[51]
Através da simplicidade da narradora, reconhecida
pela crítica, e do seu aparente “tom
menor”, desenha-se, pois, um diagnóstico de comportamento que se pauta
por alegrias leves e também por crueldades e perversões, já que, segundo um dos
personagens (e poderia afirmar uma vez mais, segundo a autora implícita) “a
educação da mulher só tem servido para a criação de mártires ou de hipócritas”.[52]
Num sistema de constante liberdade vigiada, o homem
tenta manter a mulher em zona de segurança. Como articulador da ordem, tenta
controlar possíveis desvios. E, por sua vez, resguarda o seu próprio espaço de
intimidade e privacidade. Como a experiência clandestina, tanto do homem quanto
da mulher, não pode ser ventilada, nas diversas situações da relação, vence a
moral da dissimulação necessária. Explicitamente, só resta a máscara. E para a
mulher, ela paira, sob o invólucro de chapéus com véus e plumas, que sinalizam
uma aparente e boa consciência e o dever também aparente do bem-estar social.
Já na poesia do início do século, pelo menos duas
tendências se sobressaem. Na linha da tradição herdada do final do século XIX e
que persistem, em alguns casos, até os anos 20 do século seguinte, persiste a
poesia que prima pelo acabamento nos moldes parnasianos, na trilha de um dos
líderes desse movimento: o poeta Olavo Bilac. É o caso da escritora Francisca
Júlia, por exemplo, que mantém repertório temático de gosto greco-latino e
cultiva sonetos imitados dos poetas-homens que considerava mestres. Até nos
próprios títulos nota-se o aplacamento de ânsias e emoções, que são
praticamente domesticadas em favor da objetividade e dos rigorosos compromissos
formais. Um dos seus livros de poemas intitula-se Mármore, publicado em 1895; e outro, já de 1920, intitula-se Esfinges. Neste, um dos poemas
intitula-se “Musa impassível”...
Mário de Andrade, na célebre série de artigos
intitulados “Mestres do Passado” e publicados em São Paulo, no Jornal do Commercio, em 1921, ao
criticar os parnasianos Olavo Bilac, Raimundo Correa, Alberto de Oliveira,
Vicente de Carvalho, inclui aí sua crítica a Francisca Júlia que, segundo o
crítico, era didática e também “gelada”…e sacrificava a poesia à arte de “fazer
belos versos”.[53]
Paralelamente, um outro tipo de poesia se instaura:
a poesia erótica de Gilka Machado, que foi muito divulgada no seu tempo.
Contrariamente a colegas suas que tentavam aplacar sensações e sentimentos e
procuravam, ao fazer poesia, não se manifestar enquanto mulheres, Gilka Machado
elege o desejo feminino como principal motivo de construção poética.
Aos 22 anos, inicia uma carreira poética marcada por
dados de uma sensibilidade íntima da mulher, patente nos títulos de livros de
poemas: Cristais partidos, de 1915; Estados de alma, de 1917; Mulher nua, de 1922; Meu glorioso pecado, de 1928. Nesses
poemas, embora haja cuidados de teor parnasiano, a poeta adota soluções de teor
simbolista, que funcionam como válvulas de escape de suas pulsões sensoriais.
Os sentidos são cultivados até com certo requinte, regados a perfumes de
sândalo, manacás, rosas, violetas e sempre-vivas. E a sensualidade ganha
espaço, em poemas sobre temas até então proibidos: o “cio”, “a volúpia”, por
exemplo.[54] Mas as sensações, de
caráter liberador, são mobilizadas em poemas de ansiedade e de denúncia social
do papel da mulher reprimida.
Além de reivindicar o direito de tomar decisões a
respeito do próprio corpo e o direito de sua representação sob a forma poética,
a poesia de Gilka Machado vai mais além: acusa os agentes opressores – os
homens; e proclama a rejeição dessa
forma reprimida de ser mulher.
A crítica, diante dessa escritora forte e decidida,
adotou solução curiosa: defendeu a mulher- esposa e mãe. Aliás, Gilka Machado
batizou a filha com o nome de Eros Volúsia, menina que haveria de se tornar
bailarina famosa, com experimentações na linha da dança de motivos nacionais
brasileiros. Assim como a crítica defendeu a mulher-esposa e mãe, separou-a da
mulher-artista e
poeta.[55] Portanto, incapaz de
admitir as duas em uma, dividiu a Gilka Machado em duas. Uma delas é a “poetisa
de imaginação ardente, transpirando paixão carnal nos seus nervos”; e a outra é
“a mais virtuosa das mulheres e a mais abnegada das mães”.[56] A artista ainda não podia
ser socialmente aceita como uma mulher que tem – e que manifesta – seus
desejos.
a eclosão do
modernismo e o romance social
Curiosamente, na década de 20, enquanto as mulheres
se notabilizavam pela produção plástica, as escritoras continuavam a escrever
como os homens de antes – adotando posturas de um romantismo, um parnasianismo
ou um simbolismo tardio. Ou escreviam como mulheres, misturando tendências, mas
desbravando um novo repertório temático, marcado pelo sensualismo vigoroso,
quando, então, eram vistas com reservas por esse mesmo público.
Embora a literatura feita por mulheres nos anos 20
não tenha ainda sido suficientemente examinada, pode-se, até o presente
momento, afirmar, com base nos dados de que dispomos, que a literatura feminina
dos anos 20 não teve o mesmo vigor e divulgação que as artes plásticas produzidas
pelas mulheres neste mesmo período. Anita Malfatti, em 1917, com suas desenhos
e óleos de cunho expressionista/cubista, inaugurava o modernismo, chocando a
opinião pública de concepção mais conservadora, de que nos ficou documento
primoroso do ponto de vista do registro da recepção: o depoimento de Monteiro
Lobato que, surpreso e desorientado, preferia devolver para um outro o que
dessa arte recebera, perguntando, desconcertado, se tal pintura seria uma
paranóia (loucura que levava o artista a perseguir o espectador) ou seria uma
mistificação (fingimento do artista que dava como sendo bom o que era ruim).[57]
Se sua arte não agradou a Lobato, nem mesmo a alguns
modernistas, como Tarsila do Amaral, já estava feita a primeira revolução nas
artes plásticas brasileiras. A abdicação do figurativismo acadêmico cedia
terreno às cores fortes, pinceladas largas, em expressões conturbadas de
sofrimentos e anomalias mentais, num tipo de pintura e desenho que valorizava a
energia, tanto da musculatura da figura
humana, quanto dos elementos que integravam paisagens.
E Tarsila do Amaral inaugurava, a partir de 1925,
com seu parceiro e marido Oswald de Andrade, a arte pau-brasil, após célebre
viagem passando Semana Santa em Minas Gerais e Carnaval no Rio de Janeiro. Mais
tarde, por volta de 1928, o chamado “casal Tarsiwald” (Tarsila e Oswald de
Andrade casaram-se em 1926), pratica a arte da antropofagia, inaugurada com
quadro de Tarsila do Amaral, intitulado “Abaporu” (o homem que come carne
humana), arte que teve manifesto, revista, muitos quadros, poemas, críticas e,
nesse mesmo ano, Macunaíma, de Mário
de Andrade.
Tanto na fase do pau-brasil quanto na fase da
antropofagia, a arte de Tarsila do Amaral inventa um novo modo de olhar a realidade brasileira, pela volta
às raízes da sua cultura, relendo toda uma história, retraduzindo-a mediante o
desrecalque do que até então era considerado secundário e indigno de entrar no rol dos repertórios
plásticos: as cores rosa e azul, por exemplo. Cria um Brasil geometrizado, com
cores e formas variadas, de teor infantil e alegre, na fase pau-brasil. Cria um
Brasil onírico, com cores fortes e intensas, remetendo a lendas, mistérios e
mitos populares, na fase da antropofagia.
Mas na literatura não houve uma manifestação das mulheres
correspondente à participação das mulheres nas artes plásticas nesse momento de
eclosão modernista. Nenhuma mulher participou, como escritora, da Semana de 22.
E as que na época escreviam, na sua maioria filiavam-se a movimentos que
provinham do século XIX. No entanto, o modo de participação de tais escritoras
na vida cultural brasileira dos anos 20 ainda está para ser devidamente
avaliado.
No final da década de 20
surge uma escritora que funcionará como uma espécie de símbolo da ponte entre o
grupo modernista dos anos 20, esteticamente inovador, e o grupo dos escritores
engajados politicamente que atuarão após a Revolução de 30, a qual põe fim à
chamada República Velha dominada pela oligarquia cafeeira.
Patrícia Galvão, chamada Pagu, nos seus dezoito
anos, foi recebida pelo casal Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade. Pagu seria
a próxima mulher de Oswald de Andrade e iria escrever, em 1931, com pseudônimo
de Mara Lobo, um romance intitulado Parque
Industrial, publicado dois anos mais tarde: em 1933.[58]
Talvez a figura
de Pagu, marcada pela militância política, tenha sido o seu traço mais
importante, sobretudo com suas crônicas jornalísticas. Estas foram escritas
logo depois do seu livro de poemas com arranjo gráfico inovador, o “Album de
Pagu - Vida, Paixão e Morte”, de 1919. E ocuparam a coluna “A Mulher do Povo”,
em jornal que publicou com Oswald de Andrade em 1931 e que depois de 8 números
foi fechado pela polícia, após brigas entre pessoas da redação, em especial,
Oswald de Andrade, e estudantes da Faculdade de Direito de São Paulo. Mais
tarde a militante Pagu será presa na França. E, de volta ao Brasil, passará
cinco anos na cadeia, dos seus 25 aos 30 anos: de 1935 a 1940.
Pagu, neste seu romance dos anos 30 - portanto,
dentro do clima literário do momento, que foi o do romance social - toma por
fio do enredo a questão trabalhista e a causa revolucionária comunista. Os
personagens classificam-se segundo adesão ou não à causa. E, consequentemente,
segundo a classe social. Dessa forma, um deles representa a adesão firme: é
morto pela polícia em pleno movimento grevista. Outro, da classe alta, abandona
seu lugar social em favor do proletariado, mas é expulso do partido, acusado de
trotskysta. Dentro dessa perspectiva é que surgem as classes de mulheres. E, sob esse aspecto, a narradora é implacável.
As da classe alta são “éguas do mesmo pedigree”. São elas “meia dúzia de
casadas, divorciadas, semi-divorciadas, virgens, semi-virgens, sifilíticas,
semi-sifilíticas. Mas de grande utilidade política. Boemiazinhas conhecendo
Paris. Histéricas. Feitas mesmo para endoidecer militares desacostumados”.[59]
Dentre estas, há mocinhas da Escola Normal, à espera dos futuros maridos. E há
madames preocupadas apenas em experimentar vestidos nas modistas de renome, atitude
tão inócua quanto a fala dita politizada de uma delas, que pergunta: “ - Como
não hei de ser ‘comunista’, se sou ‘moderna’?[60]
A crítica ao feminismo burguês incipiente e retrógrado é a marca por excelência
da caracterização das personagens femininas no romance.[61]
Defende, pois, um feminismo dependente de reformas
mais globais e ligadas a mudanças sociais baseadas em princípios do
materialismo histórico, bandeira que carregou também nas colunas críticas “A
Mulher do Povo”. Aí faz acusação veemente às mulheres fúteis, que ela chama de
“baixa da alta”.[62]
A atitude de consciência política manifesta-se,
inclusive, no comportamento afetivo de certa personagem, que, no entanto, deve
ceder diante dos compromissos partidários e abdicar da relação amorosa, pondo à
prova, assim, suas convicções políticas.
A romancista prima por praticar recursos que
favorecem o dinamismo da narrativa, como frases brevíssimas em linguagem
telegráfica, imagens-flashes fotográficas e reunidas por colagem, segundo os
moldes do modernismo dos anos 20. Mas o romance se sobressai mais pelo seu tom
de firme inconformismo, buscando novos caminhos de ação prática e evitando o
perigo da simples e passiva constatação da vitimização da mulher e do homem,
agora, unidos ou enquanto operários, ou enquanto militantes, diante das
circunstâncias nefastas de desigualdade social.
Este também é o eixo central do romance escrito por
Rachel de Queiroz em 1937, intitulado Caminho
de pedras. Depois de se dedicar ao romance nordestino, abordando o tema da
famosa seca de 1915, no romance por isso intitulado O quinze, de 1930, a escritora conta a história de mulher que
escolhe o seu companheiro: abandona o marido que ela não ama e se une a um
outro homem, enfrentando os preconceitos que tal decisão provoca.
Fica, do romance, uma especial sensibilidade da
narradora em relação à personagem feminina, que aparece representada na sua
integridade de caráter, marcada pela firmeza e pertinácia nos caminhos
políticos e afetivos. O equilíbrio manifesta-se no percurso da ação, entre o
comportamento individual e coletivo. Os fatos da intimidade, que afloram e se
expandem, revertem em ações práticas de satisfação, equilibrando-se com os da
vida social, que se justificam na prática da militância política. De um lado, a
paixão. De outro, a revolução. E os dois, unidos nesta dupla e harmoniosa
causa. Concluindo: diria que houve, nesse romance, por parte da sua autora,
Raquel, a construção de uma feliz coincidência: o homem amado ser também o
colega político...até que um final infeliz os separe.
Nesta história, parece haver muito da história da
própria autora, que, com seus 27 anos de idade, já havia passado por boa
literatura com seu célebre O Quinze,
e já havia passado pelo Partido Comunista, de 1931 a 1933; e é presa como trotskysta
neste mesmo ano de 1937, justamente no ano da publicação deste romance, o Caminho de pedras.
Mas se existe uma contenção estrutural que assegura
permanente equilíbrio entre forças individuais e sociais, tônica dos romances
da época, existe também uma argúcia e respeito da autora na construção de
estados da intimidade. O engajamento político não reduziu os limites do
horizonte das personagens; antes parece haver contribuído para a melhor
apreensão da natureza dos sentimentos, como o da paixão, representado na sua
complexidade, e acarretando, por vezes, reações insuspeitadas. É o caso do
momento em que a personagem feminina, fugindo da estreiteza da vida cotidiana
infeliz e mesquinha, se expande pelo imaginário de histórias de mulheres
“heróicas, livres e valentes”, embriagada por tais “possibilidades de
libertação”.[63]. É o caso
também de momentos de sutileza, em que se espera tudo e, aparentemente, nada
acontece a não ser o fluxo irremediável do sentimento, simplesmente
acontecendo, como se fosse um crime: “essa força invencível arrastando, fazendo
agir, e essa lucidez melancólica e impotente constatando”.[64]
Foi justamente esta capacidade de perceber nuances
de um comportamento feminino apaixonado que se vê abandonar às suas forças - o
que considero, tal como aqui foi construído, uma qualidade - , foi justamente
este fato que a crítica não reconheceu, ao elogiar seus valores de escritora.
Olívio Montenegro, por exemplo, e justamente no “Prefácio” deste livro, atribui
o valor da escritora ao fato de, em nenhum de seus romances, deixar “trair
(manifestar) o sentimentalismo do seu sexo”, pois o que a distingue, afirma
ele, é ser “uma personalidade viril”...[65]
Uma das boas razões que encontra para elogiar os
livros - e talvez tivesse razões para isso - é que a escritora, além de ser
homem na escrita, não “se detém tampouco em nenhuma fantasia.” Parece não haver
ele lido o trecho em que existe a entrega da personagem feminina principal a um
sonho de libertação. E não haveria como executar, na prática, o projeto de
libertação do caminho de pedras - individual e coletivo - sem se deixar levar
por estes caminhos de areia do imaginário, sacudindo, de vez em quando, os
sapatos, na feliz companhia do amante camarada.
Os romances de Lúcia Miguel Pereira, ainda nos anos
30, não têm a tônica da mudança social, com traços de invenção modernista, mas
radical nas colocações - como o de Pagu-Mara Lobo. Nem se trata de narrativa
mais tradicional, sensível às pulsões da fantasia, como o de Rachel de Queiroz.
Centra-se, de acordo com a linhagem dos romances do século passado, no fio das
questões da sociedade burguesa, nas suas relações dentro do núcleo familiar.
Mantém-se estritamente dentro destas células da família, abrindo apenas este
circuito, tenuamente, em função de um ou outro acontecimento, desde que não
comprometa as fronteiras internas deste território tão bem delimitado.
Nenhum dos seus três romances publicados nesta
década foge a essa regra: Maria Luiza[66],
de 1933, conta a história da mulher casada, que comete adultério, sente-se
culpada e se refugia na religião. No romance Em Surdina[67],
também de 1933, a personagem feminina principal não se casa porque não enfrenta
a libertação da autoridade do pai nem reconhece, como válidos, os valores do
casamento - como também não se contenta com os valores de solteira com os quais
tem de se defrontar. No romance Amanhecer[68],
de 1938, a personagem feminina nem se casa, como no primeiro romance; nem fica
solteira, como no segundo. Junta-se a um amigo, mas também não é feliz. Assim sendo,
nem o casamento, ainda que com adultério, nem o celibato, nem o concubinato,
trazem a felicidade para a mulher. Apenas no último romance, de 1954, Cabra-Cega[69],
a personagem experimenta um momento de
felicidade, quando tem caso com um sujeito que mal conhece e constrói, assim, o
seu “segredo”. (Clarice Lispector diria: a sua “felicidade clandestina”.) Que
dura, aliás, muito pouco.
A estrutura romanesca traduz, nesse universo fechado
e severo, os resultados de uma experiência de vida da autora que se desenvolveu
em ambiente de formação católica acentuada, ligada ao grupo Dom Vital, no Rio
de Janeiro, a que se somariam outras experiências: a de mulher casada com
historiador de renome, Otávio Tarquínio de Sousa; a de mulher de grande
atividade intelectual, também funcionária da Secretaria de Educação e Cultura e
da Biblioteca de Educação, integrante da comissão Machado de Assis, encarregada
da publicação das obras desse autor; a de biógrafa - de Machado de Assis e de
Gonçalves Dias; a de tradutora, ensaísta, jornalista, e, sobretudo,
crítica.
Os romances trazem as marcas dessa formação. A
estrutura do primeiro deles, Maria Luiza,
inclui digressões de ordem religiosa, filosófica, moral, voltadas, na maioria,
para as fases da experiência da personagem que caminha do dever ao prazer, e do
prazer, novamente ao dever, passando, ao final, por toda sorte de
mortificações, até a confissão e absolvição. E se a linguagem é bem organizada,
sem grandes lances imagísticos, restringe-se ao andamento episódico, com amarração
um tanto frouxa entre alguns capítulos. E é no segundo, Em Surdina, que a narradora desenvolve uma verdadeira inquisição a
respeito do que é a vida de mulher
carioca, com papéis sociais bem demarcados.
Anuncia, pois, e critica, as várias opções de vida
da mulher: se casada, escrava, dependente financeiramente e mentirosa; ou
casada e mãe, verdadeira criadeira, decadente fisicamente; ou ainda casada e
separada tragicamente; ou casada sem
afinidade com o marido e infiel a ele. Deste emaranhado de funções, só a
solteira se salva, conservando certa dignidade - ainda que sem muita alegria.
Este retrato de família brasileira
carrega um substrato moralista de crítica à avareza, ao hedonismo, ao
adultério, aos prazeres exagerados, ao egoísmo, ao casamento sob variadas
formas, ao comportamento estereotipado. E defende a liberdade ainda que
relativa e a criação literária.
A autora denuncia, pois, a pressão das convenções
de família, a submissão da mulher diante de tal peso e os vícios de uma família
aparentemente bem comportada. Não há satisfação pessoal nessas relações
convencionais. Simplesmente porque tais relações são convencionais, ou seja, a
experiência aparece filtrada pela barreira das regras movidas a hipocrisia de
uma sociedade que perdeu o sentido da experiência de sua própria autenticidade.
Perdeu-se a própria identidade primitiva, única garantia possível de
sobrevivência - diria - criativa e, assim, original.
A constatação dessa perda de identidade e a sua
problematização, pela prática de uma linguagem literária, é o que a poesia de
Cecília Meireles e a prosa de Clarice Lispector efetivamente executam, nas
décadas subsequentes, a partir da década de 40.
a poesia de
Cecília Meireles
Cecília Meireles, por sua qualidade poética, marcou
a história de nossa poesia no século XX. A sua poesia mostra cuidado formal
rigoroso. Os versos bem medidos têm musicalidade, com nuances de ritmos e
cadências, e plasticidade, em imagens que se distribuem com variedade cromática
de tons pastéis. A delicadeza, que gera leveza nos gestos e finos traços, pode
ser uma tônica desta poesia. Como resultado final, paira o equilíbrio formal,
com simetria de quantidades, em que nada parece sobrar ou faltar. A etereidade
de “nuvens” e “mares” é um dos temas centrais de tais versos. Sem ambições de
se fixar, e, assim, cristalizar-se, o etéreo flui de modo suave, encadeia-se em
seqüência de espelhamentos, em busca de uma imagem que está sempre mais além -
“face perdida” - que se lhe escapa[70].
Cecília Meireles “paira, simplesmente”, segundo
afirmação do crítico Amadeu Amaral[71]. E paira tanto no
território da produção, em que a própria autora se instala enquanto voz
poética, quanto no da recepção pelo público leitor, ocupando um lugar de realce
na literatura brasileira.
Embora Cecília Meireles estréie em 1919, com Espectros, seguido de Nunca Mais e Poema dos Poemas, de 1923,
e ainda de Baladas para El-Rei, de
1925, em que tendências simbolistas e traços parnasianos misturam-se, só vai
considerar como obra sua os poemas a partir de 1939, com Viagem. Mas desde o início de sua produção, pratica uma poesia de
fina sensibilidade e delicadeza.
E o conjunto de sua produção mostra tendências
heterogêneas, como bem observou o crítico Mário de Andrade, em referência ao
livro Viagem, premiado pela Academia
Brasileira de Letras. De fato, se ocorre aí a heterogeneidade que o crítico
traduziu pela imagem do "bordado búlgaro", reconhece também outras
qualidades que a esta se somam: os "requintes de pensamento refinado"
e a “simplicidade popularesca”, por exemplo.[72]
Como resultado da primeira, cria uma poesia que,
ainda segundo Mário de Andrade, “parece totalmente sem assunto".[73]
E que se pauta por uma preocupação que atravessa a sua produção poética, a de
experimentar "femininamente, além das lágrimas, a angustiada volúpia de ter um nome”, usando, para
atingir tal meta, uma técnica "energicamente adequada". E dando vazão
a uma "alma grave e modesta, bastante desencantada, simples e estranha ao
mesmo tempo, profundamente vivida. E silenciosa".[74]
Daí talvez a constante do tema do auto-retrato, em imagens que traduzem a
temporariedade dos fatos e sua fluidez em fluxo vital, transfigurando-se em
águas, ares e mares.
Da segunda vertente de sua poesia, a do seu pendor
popular, surge a marca da musicalidade em sons que constróem canções e
serenatas. Cultivando um lirismo de tradição medieval, a escritora exercita a
oralidade em linguagem límpida. E dessa pesquisa, advém o seu Romanceiro da Inconfidência, de 1953,
quando sua poesia ganha ainda nova dimensão, mediante a construção do retrato
nacional do país em momento de crise e de luta, mediante defesa de
reivindicações de caráter político que alimentaram a Inconfidência Mineira.
Nesse trabalho ganha vigor a autora poeta e também
pesquisadora dos Autos da Devassa, estudiosa
do folclore brasileiro, enquanto professora da hoje Universidade Federal do Rio
de Janeiro (na época Universidade do Distrito Federal), onde lecionou
Literatura Luso-Brasileira e Técnica e Crítica Literária.
O poema histórico monta-se em quadros sucessivos
mediante colagem de cenas e retratos de personagens envolvidos no movimento
pela nossa independência e autonomia, em obra de maturidade poética, em que o
lirismo social pisa firme o chão da história. E assume o tom de denúncia, a
partir do compromisso de luta. Acusa, entre tantos erros, o defeito da
corrupção pelo ouro. E o da injustiça.
O conjunto da obra poética de Cecília Meireles
caracteriza-se, pois, por uma dimensão individual – a mulher buscando sua
imagem – e também por uma experiência de dimensão coletiva – no campo político
das reivindicações de caráter libertador.
Seguindo a trilha dessa primeira vertente da poesia
de Cecília Meireles, muitas outras escritoras vão procurar, no espaço da
representação artística da literatura, a sua identidade de mulher. Entre elas,
Adélia Prado, que se reconhece “desdobrável” e que, na sua “bagagem”
drummondiana, incorpora um cotidiano em “dor sem amargura” - expressão que, a
meu ver, já bem traduz o clima poético de sua obra.[75]
Instala-se à vontade neste ponto de encruzilhada de múltiplos papéis, que
exigem versatilidade e até acrobacia. Assume atribuições que vai simplesmente
incorporando, sem rigorosas triagens eletivas nem exigências constrangedoras.
Adere a si, de bom grado e de bom humor.
Em poesia plantada no cotidiano mineiro de
Divinópolis a mulher come “arroz, feijão-rouxinho, molho de batatinhas”, tem o
Zé, bonito, do lado, tem filhos e compadres, tem fé, que dá certeza e tem Deus,
que dá tudo. Talvez por isso, rodeada de tanta graça, seja poesia que mais
responde que pergunta.
Parece haver uma gradação neste percurso poético: da
sensação ávida, perturbadora, de Gilka Machado, até a suavidade serena,
indagadora, de Cecília Meireles, e desta, até a confiança firme e inabalável da
fé, em Adélia Prado, em universo de certezas que, no entanto, se desfaz...em
algumas outras escritoras contemporâneas.
É o caso de Ana Cristina César, que habita um ponto
extremo da contundência e da energia problematizadora, não só nos seus poemas,
mas nos seus textos teóricos e críticos, todos de caráter polêmico, de muita
erudição, de aguda curiosidade, de rara lucidez. Dificilmente um mundo poético
se encontra tão alimentado pelo próprio universo das imagens da arte, da
palavra, do livro, da experiência artística, enfim. E nesse mundo marcado pelos
tempos do pós-modernismo, nele tudo cabe e nada, finalmente, é verdade: lugares
de vários países, citações de vários autores, peças de vários guarda-roupas,
num misto de magicista e de camelô ambulante de cidade grande.[76]
Num mural virtual de opções, cujo suporte é sempre a
sensação intensa e desesperada, as imagens se somam, por colagens, citações,
remissões, numa espécie de clicagem,
ancorada em duas propostas de antiga linhagem feminina: o diário íntimo - ficcional, sim, mas quem sabe também
autobiográfico? - em que o eu se encontra diante de si mesmo; e a correspondência ou carta, em que o eu se dirige a um outro supostamente ausente. Qual
a razão dessa desenfreada interlocução, no sentido de sempre querer mobilizar
alguém? De sempre querer atingir esse ponto, do eu, do outro, esticando a malha
poética até as últimas consequências? E tal ponto extremo lhe chega, mesmo, sob
a forma do suicídio.
a prosa de
Clarice Lispector
Antecedendo a contundência extrema de Ana Cristina
César, Clarice Lispector tenta também levar às últimas consequências a
capacidade de resistência da linguagem, numa arte ‘suicida’. Desmancha a
realidade feita, assim, de capas, de invólucros, de máscaras. E reconstrói, do
caos primitivo, ou dos cacos de um caos primitivo, restos de uma civilização
falida, um jeito novo de ver, ao mesmo
tempo enviesado, perscrutrador, dirigido a profundidades remotas e arcaicas,
mas reconhecidas na realidade de superfície em que se desnudam, ou simplesmente
aparecem, por um olhar também loucamente direto.
Sob este aspecto, a literatura de Clarice pode ser
considerada como um corajoso processo de desconstrução, pela via da linguagem,
ela também, a todo momento, questionada, inserindo-se, assim, na fértil
linhagem de literatura metalinguística do nosso século. A novidade dessa
literatura reside, talvez, no fato de submeter o discurso a essa prova de
resistência, elasticizando o movimento de tensão até um ponto determinado que,
no seu caso, é o do encontro de si consigo mesmo, que é, ao mesmo tempo, um
outro, que é o outro também social, e que, a certa altura, se transfigura em
nada.
No decorrer do percurso, a certa altura, sob a
figura do paradoxo, Inferno e Paraíso se equivalem. E por um instante, não há
senão silêncio. Aí, “a vida se me é”, como afirma em A Paixão segundo G.H.[77],
após os difíceis passos de uma via-sacra que levam a personagem a se aproximar
do pior e melhor de si mesma - a barata - até se reconhecer aí como essa
matéria reles, arcaica, matéria viva pulsando.
O jogo de alteridade, praticado sob diferentes
configurações em quase toda a obra de Clarice Lispector, desde os primeiros
contos dos anos 40, encontra uma equivalência metafórica de caráter social no
seu último romance publicado em vida, A
Hora da Estrela.[78]
Neste, o “drama em linguagem” - para usar expressão do crítico Benedito Nunes[79]
- , faz-se pelo desdobramento já típico dessa autora: o indivíduo que, ao
reconhecer-se como tal, aparece já desdobrável num eu e num outro, cada um
desdobrando-se, por si, em mais dois, e assim sucessivamente.
Dessa forma, Clarice assina seu nome de autora
sobre os treze títulos que dá ao romance. E cria um outro, Rodrigo, que irá
escrever o romance, criando, por sua vez, uma outra, a Macabéa, que tem nome de
origem judia e é nordestina pobre - como, aliás, a própria Clarice. A
experiência individual - a mulher em busca de seu outro criando esse outro em
que se espelha - faz-se em vários níveis: autora que vira narrador que vira
personagem de si mesma, personagem que também é o narrador e também é a autora.
Numa das cenas que representam tal acoplagem o
escritor Rodrigo vê a nordestina ao espelho e “no espelho aparece o meu rosto
cansado e barbudo. Tanto nós nos intertrocamos”.[80]
Termo eficaz, este, o da intertroca,
para traduzir a montagem dessa construção de imagens/personagens que se
desdobram ao longo da obra que se faz.
Numa outra cena é Macabéa que, após receber a
notícia de que seria despedida do emprego, vai ao banheiro “para ficar sozinha
porque estava toda atordoada” e lá se vê jogada em duplo, enxergando-se ora
como ‘ninguém’, ora com a ‘deformação’: “Olhou-se maquinalmente ao espelho que
encimava a pia imunda e rachada, cheia de cabelos, o que tanto combinava com
sua vida. Pareceu-lhe que o espelho baço e escurecido não refletia imagem
alguma. Sumira por acaso a sua existência física? Logo depois passou a ilusão e
enxergou a cara toda deformada pelo espelho ordinário, o nariz tornado enorme
como o de um palhaço de nariz de papelão. Olhou-se e levemente pensou: tão
jovem e já com ferrugem”.[81]
O espelhamento de eus faz-se não só no campo das classes
sociais, mas no de gêneros e de culturas. A autora Clarice é a que
supomos que conhecemos: muito pobre, enquanto imigrante judia passando fome no
nordeste, até os seus doze anos - ou vivendo também miseravelmente quando chega
ao Rio de Janeiro, onde vive dos 12 aos 23; ou não digo rica, mas de classe
alta, enquanto casada com diplomata, vivendo no exterior, primeiro na Itália,
depois na Suíça, Inglaterra, Estados Unidos. E é a Clarice novamente bem pobre,
mas sobrevivendo por atividade artística, precisando escrever crônicas para
jornal e livro por encomenda para cuidar dos dois filhos com quem vive depois
da separação do marido, já de volta ao Rio de Janeiro. Passa, pois, por três
situações de vida - econômicas e culturais - diferentes. Foi as três. E
carregou, pelos menos, as três, ao escrever este seu último romance publicado,
no seu último ano de vida.
O narrador Rodrigo também vive a pressão de três
classes sociais: é o escritor que é estranho para a classe alta, temido pela
média e simplesmente desconhecido pela baixa. Afirma esse narrador Rodrigo a
respeito de si mesmo: “A classe alta me tem como um monstro esquisito, a média
com desconfiança de que eu possa desequilibrá-la, a classe baixa nunca vem a
mim”.[82]
E Macabéa é tão só a classe baixa, miserável, no seu
generalizado ‘nada ter’, numa sociedade marcada pelos bens de consumo. E é ‘sem
classe’, se considerada do ponto-de-vista do que ela encarna: milagre de vida
inexplicável desde que, apesar de tudo, sobrevive, inconsciente, como verdade
de um não-saber, na insignificância e no anonimato.
Paralelamente às classes, as respectivas culturas: a
escritora Clarice e o escritor Rodrigo têm o bem cultural da escrita. São
autores. E, além disso, pertencem à linhagem dos autores que questionam essa
cultura, metalinguisticamente, com sofisticações refinadas. Ao criar, com
prazer e dor, desdobram-se num outro, nas suas criaturas, como Macabéa. Esta,
como datilógrafa, copia apenas. Não só suja o papel, com dedos de unhas curtas
demais e maltratadas, como copia errado, sem saber o que significam as
palavras. Escreve “desiguinar”. E pergunta o que é “cultura”. Vive de cultura
de massa e de sucata: ouve músicas sentimentais pelo rádio, aprende coisas de
almanaque (que, por exemplo, uma mosca leva 28 dias para dar volta ao mundo,
caso voe em linha reta) e recorta anúncios das revistas que outros lêem.
Também sucedem-se, em cadeia, os gêneros. O feminino
de Clarice cria o masculino de Rodrigo que, por sua vez, cria o neutro de
Macabéa, que não se descobre socialmente localizado: marginal, não é mulher nem
homem, é coisa. Assim, tanto pode ser ‘lida’ como força positiva, quanto
negativa, ou seja, nela tudo cabe
porque ela nada é. Paira, superior,
acima das mesquinharias de uma sociedade como a nossa, regulada pelo império
das aparências falsas e enganosas, e aí paira sem nem ter consciência de que
representa ‘isso’, esse milagre de resistência, digna de um macabeu, que
sobrevive, apesar de tudo e de todos, emitindo, na voz fraca e na morte na
sarjeta, o grito mudo de reivindicação de um lugar onde possa sonhar - e se
casar com o loiro estrangeiro, bonito e rico. Enfim, onde possa tornar-se
sujeito de uma história, até então manipulada pelos outros donos do saber,
inclusive pelo seu proprietário intelectual, o escritor, que vive às custas
dessa personagem que não pode viver ao seu lado, numa sociedade onde ele
também, poderoso, vive escrevendo, criando e...matando Macabéas.
A história de amor do romance também se desdobra, em
tantas outras: é a história de amor de Clarice por Rodrigo, este narrador do
seu romance, criatura sua, modelada para essa função de contar a história. É a
história de amor de Rodrigo por sua personagem Macabéa, criatura sua,
modelada para essa função de contar de
quanta miséria - e, ao mesmo tempo,
quanta grandeza - se faz a condição humana. E é a história de amor de Macabéa
por Olímpico, o bandido que quer ser deputado. Ou por Hans, o moço bonito
anunciado pela cartomante.
Dificilmente, na história da nossa literatura - de
homens e de mulheres - houve um questionamento do intelectual de tal
envergadura e coragem. Capítulo subsequente dos romances sociais dos anos 30,
esse romance de Clarice Lispector desmitifica, ou desconstrói também, a figura
do intelectual, do escritor, do artista, que é um dos que têm, em contraste com
o seu objeto de arte, ou personagem, o que não
tem. Numa experiência da diferença que se faz por dentro - há os que cosem
por fora, eu coso para dentro, afirmava Clarice - . a ‘verdade’ dessa injustiça
social surge não por teorias, nem por plataformas revolucionárias. Surge por
experiência desmitificadora: desmonta o que está feito. E é assim também que
cada um conquista a sua hora da estrela,
em momento de extrema grandeza e miséria.
O desejo - como manifestação de um querer, que é
simultaneamente configurado como individual e coletivo - , traduz-se, também em
Clarice, tal como o foi no início do século com Júlia Lopes de Almeida, por um
ardoroso apego ao detalhe e por uma aparente ligeireza e banalidade, como se aí
nada fosse importante, mas num tom descompromissado que esconde, perversamente,
sob a forma da máscara, uma outra realidade.
Nesse espelhamento a mulher,
de lá para cá, mudou muito. Sempre em estado de solidão e, por vezes, de
insatisfação, tais estados de desejo são elaborados literariamente sob
diferentes olhares, por essas mulheres. Um passeio pela ligeireza do cotidiano,
como traço quase caricaturesco de uma sociedade em miúda festa da banalidade,
com Júlia Lopes de Almeida. Uma reflexão da condição social com aparelhamento
ideológico marxista, mediante experimentações modernistas, com Pagu-Mara Lobo;
sensível, com aberturas para experiências da fantasia, em Rachel de Queiroz;
estritamente familiar, a partir do peso da estrutura conservadora, em Lúcia
Miguel Pereira. E metalinguisticamente, em etapas sucessivas, gradativas,
ritualisticamente, num processo desconstrutor radical, em Clarice Lispector.
Até essa Hora de Estrela, a Mulher teve de percorrer
um longo e penoso caminho. Afinal, não é fácil reconhecer-se, a partir do tudo
com que nos deparamos, no extremo nada
de que todos, homens e mulheres, somos feitos. E em que, paradoxalmente, a
mulher encontra seu brilho próprio. Nessa altura, no entanto, já não se vê
mais, pois está feito o percurso necessário “para desaprender o seu nome”,
conforme expressão minha para parodiar, à moda de Clarice Lispector, o verso de
Cecília Meireles. Sem espelho, sem imagem, sem reflexo, na conquista de si
mesma, a mulher-personagem já pode pairar, anônima, no silêncio, enquanto
simplesmente um ser.
A descoberta de que o verdadeiro nome está na
ausência dele – ser nada e ninguém – por um fluxo narrativo que escava, em
profundidade, os invólucros ou artifícios culturais que abafam a selvageria
instintiva, pode ser considerada como uma nova etapa de nossa antropofagia
cultural. O mundo da privacidade recalcada e até mórbida da mulher, no seu
espaço familiar de que se vê na maioria das vezes prisioneira, e a dimensão
coletiva em que a mulher descortina a consciência de seu não-espaço, marginal e
massacrado, será assunto de outros romances femininos, como os de Lygia
Fagundes Telles e Lya Luft, por exemplo.[83] Mas o que se sobressai
nesse último romance de Clarice Lispector é o grau de questionamento que leva a
mulher até o extremo limite de sua capacidade desconstrutora.
Até o presente momento, é o grito de Macabéa na sua
hora de agonia e morte, quando conquista a grandeza da dimensão humana pelo
poder de resistência num contexto adverso, que ainda ecoa, forte, como música
de fundo de toda uma história da mulher na literatura brasileira.
os estudos
feministas
Pode-se afirmar que os estudos da mulher na literatura brasileira surgem, no Brasil, como
consequência das questões até aqui anunciadas. Se há textos esquecidos, há
necessidade de recuperá-los, ressuscitando-os das páginas manuscritas, ou de
primeiras edições escondidas nas estantes, ou de reedições esgotadas. Trata-se,
neste primeiro caso, de trabalho de resgate.
Com tal intenção, foram fundadas editoras
especializadas em textos escritos por mulheres, na maioria com propósitos de
divulgação de trabalhos em várias áreas de conhecimento afins[84], ligadas ou não diretamente
a agências de fomento e a grupos de pesquisa específicos sobre mulheres.[85]
Pesquisas de âmbito regional são incentivadas,
visando o levantamento de dados referentes a escritoras de várias cidades ou
Estados do Brasil, em estudos que se fazem necessários, tendo em vista a enorme
extensão territorial do país e a diversidade de culturas aí existentes.
Pressupõem a pesquisa a periódicos de época, a livros, a catálogos e a demais
fontes que possam permitir um mapeamento da produção literária e jornalística
de cada região, bem como das trocas culturais, mediante estudos de recepção. O
levantamento, relativamente recente, tem contribuído para que se determine um
corpus básico, para que, então, se possa proceder às etapas subsequentes de
análise crítica e interpretativa das obras, acompanhadas de um sistemático
balanço das premissas metodológicas mais adeqüadas ao objeto em questão.
Como produto desse trabalho, têm surgido reedições
importantes, como as de escritoras do século XIX, tanto as que se dedicaram ao
romance[86], como à poesia[87],
à crônica, ao teatro, ao jornalismo. Acrescente-se ainda a reedição de revistas
do século XIX e do século XX, algumas, em edição fac-similar[88],
bem como o estudo específico de algumas dessas revistas[89].
E o levantamento, por vezes acompanhado de análise, de textos de gêneros
discursivos específicos, até então considerados ‘menores’, como os livros de
memórias de mulheres.[90]
Também informações úteis aparecem sob a forma de verbetes referentes a, por
exemplo, mulheres ensaístas.[91]
Num segundo bloco, situam-se os estudos que tentam
reler os textos escritos por mulheres – e por homens, com o objetivo de
praticar um novo modo de ler, de
cunho na maioria das vezes feminista. Ainda
que, dentro dessa linha, possam ser assumidas diferentes posturas teóricas,
metodológicas e críticas, tais estudos têm mostrado, de modo geral, uma dupla
perspectiva: ora a adoção de uma linhagem anglo-saxônica, com as ramificações
norte-americanas, na leitura de tradição marxista, de caráter mais social e
político do gender, nas suas relações
com a antropologia cultural; ora a adoção de uma perspectiva francesa, mais
alerta a questões de ordem psicanalítica, privilegiando a questão da diferença, valendo-se, em algumas
vertentes, das relações com a linguística e a semiótica.[92]
Num terceiro bloco, e já como consequência dos dois
anteriores, há um linha de conhecimento referente ainda aos estudos literários
da mulher na literatura que se move com base no produto concreto dos resultados
de leituras específicas desenvolvidas em torno de obras de escritoras
brasileiras. E que procura, a partir de tais resultados, com base nas
constantes e variantes de construção de tais obras literárias e recusando
sistemas fechados, tecer considerações a respeito das respectivas condições
contextuais de produção cultural.
O conjunto de tal produção científica evidencia que
uma metodologia de história, teoria e crítica de nossa literatura feminina
brasileira vem, paulatinamente, sendo montada por nossos estudiosos e
estudiosas de literatura, ou de modo individual, ou, mais frequentemente, de
modo coletivo, sob a forma de grupos de pesquisa.
Têm exercido papel importante no sentido de
desenvolver tais estudos, os vários cursos de Pós-Graduação sobre o assunto e
Núcleos de Estudos da Mulher implementados em várias Universidades brasileiras,
a partir sobretudo dos anos 80, que geraram uma produção científica de
qualidade, divulgada ora em volumes de autoria individual, ora de autoria
coletiva.
É o caso do Grupo de Trabalho A mulher na literatura, filiado à Associação Nacional de
Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (ANPOLL), que, desde sua
fundação, em 1987, conta com a adesão de quase duzentas pesquisadoras, e que
vem publicando sistematicamente os resultados dos trabalhos, sob a forma de boletins
periódicos e coletâneas de artigos e ensaios.[93] O mesmo grupo vem
promovendo também, desde 1988, Seminários Nacionais, bienais, realizados em
anos alternados aos do GT A mulher na
literatura.
Num balanço crítico datado de início dos anos 90,
Heloisa Buarque de Hollanda reconhecia três linhas mestras de estudos no grupo
de trabalho A mulher na literatura, que denominou de: literatura e feminismo,
literatura e feminino, literatura e mulher.[94]
A primeira vertente, reconhece como sendo a de caráter participante,
“absorvendo desde a pesquisa no sentido da recuperação da história silenciada
da produção feminina até a análise dos paradigmas patriarcais e logocêntricos
da literatura canônica”. A segunda, literatura e feminino, mais preocupada com
a “identificação de uma escritura feminina”, de modelo francês, com uma
inflexão marcadamente semiológica e/ou psicanalítica”. E a terceira, literatura
e mulher, mais diretamente ligada ao trabalho de análise do papel da mulher na
literatura (como autora, narradora, personagem), sem problematizar a questão
das relações de gênero.
Tal produção científica tem sido publicada
regularmente pelas equipes responsáveis por cada um desses eventos, em estudos
que, apesar de estarem imbricados entre si, distribuem-se, fundamentalmente,
neste final dos anos 90, em três grandes blocos de reflexão, com alterações
sutis, mas significativas, em relação aos grupos anteriores: a teoria e crítica feminista; a questão
mais específica do cânone; as
múltiplas implicações da categoria do gender.[95]
Nota-se, pois, nos estudos mais recentes, pela
simples nomeação de cada linha de
reflexão, uma preocupação mais acentuada em construir repertórios teóricos que
possam examinar a prática da leitura mediante opções por um feminismo que
continua sendo, por princípio, não canônico, e que se abre às múltiplas
sugestões suscitadas pela categoria do gênero.
Mais uma vez, a necessária desconstrução do nome…também
de tais estudos: evitando a tradição da generalização de, simplesmente, estudos literários, o enfoque torna-se
mais dirigido quando se detém na questão específica da literatura ligada aos estudos da mulher, e, posteriormente,
transforma-se em estudos de gênero ao
reforçar a interferência cultural na construção dos papéis sociais que se
desenvolvem no âmbito das relações humanas entre homens e mulheres. Sob tal
enfoque, o trabalho científico tem mostrado resultados substanciais, conforme
comprovam os textos publicados na revista especializada na questão do gênero,
intitulada Estudos Feministas[96], bem como a publicação de
bibliografias mais gerais sobre o assunto.[97]
Também com objetivo de pesquisa, e, algumas vezes,
com finalidades práticas de atendimento a um público amplo e diversificado,
foram fundados vários núcleos de estudos da mulher ligados a várias
instituições universitárias, com publicações próprias. E há também organizações
independentes que promovem debates e encontros específicos sobre a questão da
mulher na realidade brasileira, com enfoques e metodologias de várias áreas de
conhecimento e, quase sempre, de caráter interdisciplinar.
O estágio atual dos estudos até o momento
desenvolvidos, sobretudo no que se refere ao questionamento de fundamentos
básicos de metodologia de trabalho e à divulgação de textos literários
esquecidos e de fontes primárias de pesquisa, mostra que a literatura feminina
no Brasil se viabiliza como um campo fértil de investigação, que vem
contribuindo para, mediante o diálogo interdisciplinar, estender os resultados
de tal investigação ao âmbito mais geral das ciências humanas, aperfeiçoando a
discussão de questões que envolvem o ser
no campo mais geral da cultura brasileira. O ser e os nomes do ser.
* Esta exposição destinou-se a um público estrangeiro, o que motivou o seu caráter fundamentalmente informativo, patente na seleção de ítens e de questões críticas aqui propostas.
[1] O romance A hora da estrela, de Clarice Lispector, foi publicado em 1977, ano da morte da escritora, que ocorreu em dezembro desse ano.
Clarice Lispector nasceu em Tchechelnik (Ucrânia), em 1920, quando viajava para o Brasil, onde viveu durante dois anos na cidade de Maceió, no estado de Alagoas, e em seguida, até os seus 12 anos, na cidade de Recife, capital do estado do Pernambuco. As duas cidades estão situadas no nordeste do Brasil, região muito pobre sobretudo no interior (sertão), em que a miséria se agrava devido a longos períodos de seca. (Cf.: Nádia Battella Gotlib, Clarice, uma vida que se conta. São Paulo, Ática, 1995.)
[2] Maria Beatriz Nizza da Silva, “Características da História da Mulher no Brasil”. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, São Paulo, 17:75-91, 1987, p. 87. Trata-se de trabalho pioneiro no sentido de se tentar um mapeamento dos estudos referentes à ‘história das mulheres’ no Brasil na área das ciências sociais.
[3] Miriam Moreira Leite (org.), A condição feminina no Rio de Janeiro. Século XIX. São Paulo, Hucitec/INL, 1984, p. 68.
[4] Apud Miriam Moreira Leite (org.), ob. cit., p.68.
[5] Apud Miriam Moreira Leite (org.), ob. cit., p.69.
[6] Apud Miriam Moreira Leite (org.), ob. cit., p.71.
[7] June E. Hahmer, A mulher brasileira e suas lutas sociais e políticas (1850-1937). São Paulo, Brasiliense, 1981, p. 33.
[8] Apud Miriam Moreira Leite (org.), ob.cit., p. 43.
[9] Apud Miriam Moreira Leite (org.), ob. cit., p. 63-65.
[10] Apud Miriam Moreira Leite (org.), ob. cit., p.74.
[11] Apud Miriam Moreira Leite (org.), ob. cit., p.74-75.
[12] Os romances publicados por Lúcia Miguel Pereira (1903-1959) são: Maria Luíza, 1933; Em surdina, 1933 (reeditado em 1949); Amanhecer, 1938; Cabra-Cega, 1954. Além desses romances, escreveu também livros de literatura infantil.
[13] Lúcia Miguel Pereira, “As mulheres na literatura brasileira”. Anhembi. Rio de Janeiro, Ano V, vol. XVII, n. 49, dez./54, p.19.
[14] O livro de Virginia Woolf foi traduzido para o português em edição brasileira com o título de Um teto todo seu (Trad. de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro, ed. Nova Fronteira, 1985).
[15] Nuno Marques Pereira (1652-1731?) publica o seu Compêndio do Peregrino da América em 1728, contando as aventuras de um peregrino que parte pelo sertão brasileiro para converter ao bom caminho moral e religioso, os ambiciosos exploradores de minas, bem como outras pessoas que o peregrino ia encontrando pelo seu caminho.
[16] Domingos Caldas Barbosa (Rio de Janeiro, c.1740 - Lisboa 1800), mestiço, músico, tocador e cantador de viola, compunha e acompanhava modinhas e lunduns. Foi fundador da Nova Arcádia, academia para cultivo da poesia e da oratória. Escreveu, com pseudônimo de Lereno, uma obra intitulada Viola de Lereno, que teve um primeiro volume publicado em 1798 e um segundo, em 1826. Segundo Antonio Candido, “seus versinhos são interessantes, pela candura e amor com que falam das coisas e sentimentos da pátria, definindo de modo explícito os traços afetivos correntemente associados ao brasileiro na psicologia popular: dengue, negaceio, quebranto, derretimento”(Antonio Candido, Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos. 5.ed., Belo Horizonte/Itatiaia, São Paulo/Edusp, 1975, tomo I, p. 155). Introduziu a modinha brasileira nos salões de Lisboa, onde cantava seus versos acompanhando-os com viola.
[17] Lúcia Miguel Pereira, ob. cit., p. 20.
[18] Lúcia Miguel Pereira escreveu duas biografias: Machado de Assis, publicada em 1936, com várias reedições; e A Vida de Gonçalves Dias, publicada em 1943. Publicou também uma História da Literatura Brasileira: Prosa de ficção, de 1870 a 1920, em 1950.
[19] Lúcia Miguel Pereira, ob. cit., p. 22.
[20] Cf. Luiz Carlos Villalta, “O que se fala e o que se lê: língua, instrução e leitura”. História da vida privada no Brasil, v. 1: Cotidiano e vida privada na América portuguesa. São Paulo, Companhia das Letras, 1997, p.331-385.
[21] Cf. Luiz Carlos Villalta,
ob.cit., p.351.
[22] Mary Del Priore, “Ritos da vida privada”. História da vida privada no Brasil, v. 1: Cotidiano e vida privada na América portuguesa. São Paulo, Companhia das Letras, 1997, p. 275-330.
[23] Para bibliografia referente à atividade literária de Teresa Margarida da Silva e Orta, ver: Nelly Novaes Coelho, “A imagem da mulher no século XVIII: Aventuras de Diófanes, de Teresa Margarida”. Revista da Biblioteca Mário de Andrade, n. 35 (“Imagens da mulher”), jan.-dez. 1995, p. 25-36.
[24] Nasceu a 12 de outubro de 1910, no sítio Floresta, perto de Papari (estado de Alagoas). Cf. Constância Lima Duarte, Nísia Floresta. Vida e obra. Natal, UFRN Editora Universitária, 1995, p.16.
[25]Nísia Floresta Brasileira Augusta, Direitos das mulheres e injustiça dos homens. (Tradução livre do original Vindication of the rights of woman, de Mary Wollstonecraft). Introdução, notas e posfácio: Constância Lima Duarte. São Paulo, Cortez, 1989.
[26] Constância Lima Duarte, “Nos primórdios do feminismo brasileiro”. Em: Nísia Floresta Brasileira Augusta, Direitos das mulheres e injustiça dos homens. (Tradução livre do original Vindication of the rights of woman, de Mary Wollstonecraft). Introdução, notas e posfácio: Constância Lima Duarte. São Paulo, Cortez, 1989, p.107-108.
[27] Constância Lima Duarte, ob. cit., p.108.
[28] Constância Lima Duarte, ob. cit., p.121.
[29] Cf. Maria Thereza Caiuby Crescenti Bernardes, Mulheres de ontem? Rio de Janeiro, Século XIX. São Paulo, T. A. Queiroz editor, 1989.
[30] Nísia Floresta Brasileira Augusta, Opúsculo Humanitário. Introdução e notas: Peggy Sharpe-Valadares. São Paulo/Cortez, Brasília/INEP, 1989.
[31] Nísia Floresta Brasileira Augusta, ob. cit., p. 65.
[32] O ensaio “A Mulher” foi traduzido para o inglês pela filha de Nísia Floresta e publicado com o título “Woman”, em Londres, em 1865, por G. Parker, Little St. Andrew Street, Upper, St. Martin Lane. (Cf. Constância Lima Duarte, “Introdução”, em: Nísia Floresta Brasileira Augusta, Cintilações de uma alma brasileira, Trad. de Michele A Vartulli, Florianópolis, Editora Mulheres-Editora da Unisc, 1997, p. XIX.).
A Editora Mulheres, responsável por esta publicação, tem reeditado outros textos escritos por mulheres, privilegiando as escritoras brasileiras do século XIX (é o caso do romance Lésbia, por Maria Benedita Borman ou Délia, de 1890; e do volume Mulheres Illustres do Brazil, de D. Ignez Sabino, de 1899) e início do século XX (é o caso de A Silveirinha, romance de Júlia Lopes de Almeida, de 1914, por exemplo). A editora tem no prelo uma Antologia de escritoras brasileiras do século XIX, organizada por Zahidé L. Muzart. Também com esta finalidade, o Instituto Nacional do Livro iniciou em 1987 uma coleção intitulada “Resgate”, que publicou, por exemplo, em co-edição com a Presença edições, Correio da roça, de Júlia Lopes de Almeida, romance epistolar de 1913, e Voleta, romance de Albertina Berta, de 1926.
[33] Ver: Constância Lima Duarte, Nísia Floresta. Vida e Obra. Natal, UFRN Editora Universitária, 1995.
[34] Dulcília Schroeder Buitoni, Imprensa Feminina. São Paulo, Ática, 1986. Cf. Dulcília Schroeder Buitoni, Mulher de papel. A representação da mulher pela imprensa feminina brasileira. São Paulo, Loyola, 1981.
[35] Dulcília Schroeder Buitoni, ob. cit., p. 38.
[36] June E. Hahmer, A mulher brasileira e suas lutas sociais e políticas (1850-1937). São Paulo, Brasiliense, 1981, p. 35.
[37] O Sexo Feminino foi fundado pela professora Francisca Senhorinha da Motta Diniz, em Campanha da Princesa, em Minas Gerais. Cf. June E. Hahmer, ob. cit., p. 52.
[38] A Mensageira. Revista literária dedicada à mulher brazileira, Diretora: Presciliana Duarte de Almeida. Edição fac-similar. 2 v. Comentários: Zuleika Alambert. São Paulo, Imprensa Oficial do Estado, Secretaria de Estado da Cultura, 1987.
[39] J. Vieira de Almeida, “Chronica omnimoda”. A Mensageira, ano I, n. 3, 15 nov. 1897, v. 1, p. 33.
[40] Maria Amália Vaz de Carvalho, “A mulher do futuro”. A Mensageira, ano II, n. 31, 31 ago. 1899, v. II, p. 139.
[41] Maria Clara da Cunha Santos, “Carta do Rio”. A Mensageira, ano I, n. 6, 30 dez. 1897, v. I, p. 82-83.
Irajá é bairro da cidade do Rio de Janeiro.
[42] Interessante observar a menção à então contemporânea produção literária feminina, pela referência a escritoras brasileiras sob a forma de notícias, num relato ‘vivo’, em tom de crônica, da vida cotidiana literária brasileira. É o caso, por exemplo, do artigo de Pelayo Serrano (Nelson Senna), “Intelectualidade feminina brasileira”, publicado em: A Mensageira, ano I, n. 7, 15 jan. 1898, v. I, p. 103-106. As resenhas de livros escritos por mulheres e as referências a obras recebidas pela redação ajudam a compor um perfil de contexto de literatura feita por mulheres na época.
[43] Cf. Norma Telles, “Escritoras, escritas, escrituras”. Em: Mary Del Priore (Org.), História das mulheres no Brasil. 2. ed. São Paulo, Contexto/Editora UNESP, 1997, p. 414. Ver também: Norma Telles, Encantações: Escritoras e imaginação literária no Brasil do Século XIX. São Paulo, NAT Editora, 1998.
[44] Cf. Norma Telles, “Escritoras, escritas, escrituras”, em Mary Del Priore (Org.), ob. cit., p. 423.
[45] Cf. Norma Telles, ob. cit., p. 422.
[46] Cf. Norma Telles, ob. cit., p. 431-435.
[47] Para o estudo da cultura literária da belle-époque, sobretudo no que se refere à participação das mulheres nos salões literários, ver: Jeffrey D. Needell, Belle Époque Tropical: Sociedade e cultura de elite no Rio de Janeiro na virada do século. Trad. Celso Nogueira. São Paulo, Companhia das Letras, 1993.
[48] Francisca Clotilde, A Divorciada. Fortaleza, 1902. Dele há edição recente: Francisca Clotilde, A Divorciada. Romance. 2. ed. atualizada, acrescida de estudos críticos de Otacílio Colares, Angela Barros Leal, Nádia Battella Gotlib. Ceará, Terra Bárbara, 1996.
[49] É o caso do manual em que dá conselhos às noivas, publicado com o título de O livro das noivas em 1896.
[50] Julia Lopes de Almeida, “Cada vez que…”. Em: Eles e Elas. 2. ed. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1922, p. 21-28.
[51] Julia Lopes de Almeida, ob. cit., p.185.
[52] Julia Lopes de Almeida, ob. cit., p. 169.
[53] Mário de Andrade, “Mestres do Passado”, em: Mário da Silva Brito, História do Modernismo brasileiro: Antecedentes da Semana de Arte Moderna. 4. ed. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1974, p. 259-266.
[54] Gilka Machado, “Nocturno VIII”. Em: Poesias (1915-1917). Rio de Janeiro, Jacintho Ribeiro dos Santos, 1918, p. 13. (Esta edição reúne Cristais Partidos e Estados de alma).
[55] Uma leitura da fortuna crítica de Gilka Machado desenvolvo em: Nádia Battella Gotlib, “Com dona Gilka Machado, Eros pede a palavra. (Poesia erótica feminina brasileira nos inícios do século XX).” Polímica: Revista de crítica e criação. São Paulo, n. 4, 1982, p. 23-47. Ver: Sylvia Paixão, A fala-a-menos: A repressão do desejo na poesia feminina. Rio de Janeiro, Númen, 1991.
[56] Humberto de Campos, Crítica. 2. ed. Rio de Janeiro/São Paulo/Porto Alegre, W. M. Jackson, 1945, p. 400.
[57] Monteiro Lobado, “A propósito da Exposição Malfatti”. O Estado de S. Paulo, 20 dez. 1917. O artigo, que ficaria conhecido através de um outro título, “Paranóia ou Mistificação?”, encontra-se transcrito em: Mário da Silva Brito, História do modernismo brasileiro. I – Antecedentes da Semana de arte Moderna. 4. ed. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1974, p. 52-56.
[58] Mara Lobo (Patrícia Galvão), Parque Industrial. São Paulo, 1933.
[59] Idem, ibidem, p. 86.
[60] Idem, ibidem, p. 38.
[61] Cf. Nádia Battella Gotlib, “A mulher artista, a mulher arteira: Pagu, ou uma certa poética política dos anos 30”. Belo Horizonte, Cadernos do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher/ UFMG, n. 6, nov. 1988, p. 63-74.
[62] Pagu, “A Baixa da Alta”. “O Homem do Povo” n. 2, 28 mar. 1931. In Augusto de Campos (Org.), ob. cit., p.82.
[63] Rachel de Queiroz, Caminho de Pedras. 7. ed. Rio de Janeiro, José Olympio, 1979, p.45.
[64] Rachel de Queiroz, ob. cit., p. 69.
[65] Olívio Monenegro, Prefácio. In: Rachel de Queiroz, ob.cit., p.VIII.
[66] Lúcia Miguel Pereira, Maria Luiza. Rio de Janeiro, Schmidt, 1933.
[67] Lúcia Miguel Pereira, Em Surdina. 3. ed. Rio de Janeiro, José Olympio ed., 1979.
[68] Lúcia Miguel Pereira, Amanhecer. Rio de Janeiro, José Olympio ed., 1938.
[69] Lúcia Miguel Pereira, Cabra-Cega. Rio de Janeiro, José Olympio ed., 1954.
[70] Tais propostas encontram-se desenvolvidase em: Nádia Battella Gotlib, “Nem ausência, nem desventura: ser poeta”. Revista da Biblioteca Mário de Andrade, n. 53: Imagens da Mulher (Org.: Benjamin Abdala Júnior), jan.-dez.1995, p.115-122.
[71] Amadeu Amaral, “Cecília Meireles”. Em: O Elogio da Mediocridade. São Paulo-Hucitec, Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, 1976, p. 159-164.
[72] Mário de Andrade, “Viagem.”
Em: O Empalhador de Passarinho. 3.
ed. São Paulo, Martins, 1972, p.161-164.
[73] Mário de Andrade, ob. cit., p. 163.
[74] Mário de Andrade, ob. cit., p. 164.
[75] Tal tendência anuncia-se desde seus primeiros livros publicados, Bagagem e O coração disparado, que surgiram pela Editora Nova Fronteira em 1977 e 1978, respectivamente.
[76] A tendência é patente não só nos seus poemas reunidos em, por exemplo, A teus pés (São Paulo, Brasiliense, 1987; esta edição traz, além dos poemas de A teus pés, também os poemas de Cenas de abril, Correspondência completa, Luvas de pelica). Aparece também em outros textos da autora, como em Escritos da Inglaterra (São Paulo, Brasiliense, 1988) e Escritos no Rio (São Paulo-Rio de Janeiro, Brasiliense-Ed. da UFRJ, 1993).
[77] Clarice Lispector, A Paixão segundo G.H. (1964) 4. ed. Rio de Janeiro, José Olympio ed., 1974, p. 217.
[78] Clarice Lispector, A Hora da Estrela (1977) 4. ed. Rio de Janeiro, José Olympio ed., 1978.
[79] Benedito Nunes, O drama da linguagem: Uma leitura de Clarice Lispector. São Paulo, Ática, 1989.
[80] Clarice Lispector, ob. cit., p. 28.
[81] Clarice Lispector, ob. cit., p. 32.
[82] Clarice Lispector, ob. cit., p. 24.
[83] Tais escritoras têm sido privilegiadas pela crítica, ao lado de – apenas para citar alguns exemplos - Nélida Piñon, Zulmira Ribeiro Tavares, Rachel Jardim. Dentre as poetas, Hilda Hilst e Orides Fontella. E dentre as mais jovens, Ana Miranda e Marilene Felinto. Além de trabalhos acadêmicos e livros que têm como assunto a leitura analítica e crítica da obra de cada escritora, têm sido publicados volumes de ensaios e artigos referentes a várias escritoras.
[84] É o caso da editora Mulheres, dirigida por professoras de literatura da Universidade Federal de Santa Catarina. Algumas dessas editoras mantêm vínculo institucional e são ligadas a Universidades de âmbito federal ou estadual; outras, são empresas particulares.
[85] Também com o objetivo de incentivar e divulgar pesquisas em torno da ‘mulher’, tem fundamental importância o trabalho desenvolvido pela Fundação Carlos Chagas, com projetos implementados desde o final da década de 70: o primeiro “Projeto Mulher” da Fundação Carlos Chagas, subvencionado pela Fundação Ford, é de 1976; desde 1978 a Fundação vem mantendo concursos para dotação de pesquisa sobre a mulher brasileira e publicando os resultados. Neste sentido, é pioneira a publicação de Mulher Brasileira: Bibliografia Anotada, em dois volumes, em São Paulo, pela Fundação Carlos Chagas e editora Brasiliense: o primeiro volume, com dados bibliográficos referentes à produção da mulher nas áreas de História, Família, grupos Étnicos e Feminismo, em 1989; o segundo, com dados referentes às de Trabalho, Direito, Educação, Artes e Meios de Comunicação, em 1981. Os demais resultados de pesquisas dos concursos vêm sendo sistematicamente publicados pela Fundação.
[86] É o caso, por exemplo, da reedição do romance D. Narcisa de Villar: Legenda do tempo colonial, de 1859, escrito por Ana Luísa de Azevedo Castro, organizado por Zahidé L. Muzart (Florianópolis, Editora Mulheres, 1990).
[87] É o caso, por exemplo, do volume organizado por Luzilá Gonçalves Ferreira, Em busca de Thargélia: Poesias escritas por mulheres em Pernambuco no segundo oitocentismo (1870-1920), tomo I (Recife, FUNDARPE, 1991). Algumas dessas pesquisas têm site na internet, como a que enfoca as “escritoras cariocas”: nielm@openlink.com.br
[88] É o caso de, por exemplo, A Mensageira: Revista literária dedicada à mulher brasileira, publicada em São Paulo de 1897 a 1900 (ob. cit.).
[89] Eis alguns exemplos de revistas que vêm sendo examinadas: A Violeta (Yasmin Jamil Nadaf, Sob o signo de uma flor: Estudo da revista A Violeta, publicação do Grêmio Literário Júlia Lopes, 1916-1950. Rio de Janeiro, Sette Letras, 1993); Única (por Sylvia Perlingeiro Paixão, “Mulheres em revista: a participação feminina no projeto modernista do Rio de Janeiro nos anos 20”, em: Susana Bornéo Funck (Org.), Trocando idéias sobre a mulher e a literatura. Florianópolis, Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)-Pós-Graduação em Inglês, 1994, p. 421-440); Walkyrias (Ana Arruda Callado, “Uma Walkyria entra em cena em 1934”. Estudos Feministas: CIEC-ECO-UFRJ, v. 2, n. 2, 1994, p. 345-355).
[90] É o caso, por exemplo, de: Maria José Motta Viana, Do sótão à vitrine: Memórias de mulheres. Belo Horizonte, editora UFMG, 1995.
[91] Heloísa Buarque de Hollanda e Lúcia N. Araújo, Ensaístas Brasileiras. Rio de Janeiro, Rocco, 1993.
[92] Entre publicações de caráter acadêmico sobre o assunto, discutindo as diferentes vertentes teóricas e com análise de textos de diferentes escritoras, cito, dentre várias, como exemplo, a revista Gragoatá: Revista do Instituto de Letras, em número especial sobre “Figurações do gênero e da identidade”: UFF, Niterói (RJ), n. 3, 2. semestre de 1997.
[93] Desde 1987, ano em que foi fundado o GT A mulher na literatura, filiado a ANPOLL, já foram publicados sete Boletins que trazem informações a respeito de tais pesquisas, com resumos de textos e textos na íntegra apresentados nos Encontros do GT. Também os grupos responsáveis pelos Seminários têm publicado os trabalhos apresentados nos vários eventos. A título de exemplo, cito uma das primeiras publicações: o volume organizado, entre outras, por Rita Terezinha Schmidt: Organon, n. 16, UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)-Instituto de Letras, 1989.
[94] Heloisa Buarque de Hollanda, “A historiografia feminista: algumas questões de fundo”. Em: Susana Bornéo Funck (Org.), Trocando idéias sobre a mulher e a literatura. Florianópolis, Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)-Pós-Graduação em Inglês, 1994, p. 453-463. (Republicado, com algumas modificações, com o título “Mulher e literatura no Brasil: uma primeira abordagem”, em: Uma questão de gênero. Rio de Janeiro, Editora Rosa dos Tempos, 1991, p. 54-92.) Problematizando a questão mais geral da crítica feminista, da mesma autora é o texto “Introdução: Feminismo em tempos modernos”, em: Heloisa Buarque de Hollanda (Org.), Tendências e Impasses: o feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro, Rocco, 1994, p. 7-19. E também: Maria Odila Leite da Silva Dias, “Novas subjetividades na pesquisa histórica feminista: uma hermenêutica das diferenças”. Estudos Feministas, CIEC-ECO-UFRJ, v. 2., n. 2, 1994, p. 373-382.
[95] Tais temas figuram no programa para o VIII Seminário Nacional Mulher e Literatura, a ser realizado em Salvador, na Universidade Federal da Bahia, em setembro de 1999.
[96] A implementação e a consolidação de tais estudos no Brasil, em âmbito interdisciplinar, incluindo não só as várias sub-áreas dos estudos literários, mas as das ciências humanas em geral, ligadas a estudos de gênero, podem ser examinadas a partir dos 13 volumes já publicados da revista Estudos Feministas (Rio de Janeiro, CIEC-ECO-UFRJ, no momento: Rio de Janeiro, IFCS-UFRJ). A revista traz, desde 1992, artigos e ensaios, encartes em inglês, resenhas de livros nacionais e estrangeiros e informações sobre cursos, núcleos de estudos, eventos e publicações, no Brasil e no exterior.
[97] Ver: Yasmin Jamil Nadaf (org.), Catálogo de títulos sobre a mulher. Cuiabá (MT), UFMT, 1997, 2 v.; Cristina Bruschini, Danielle Ardaillon e Sandra G. Unbehaum, Tesauro para estudos de gênero e sobre mulheres. São Paulo, Fundação Carlos Chagas e Editora 34, 1998.