LITERATURA E MEMÓRIA: resgate das escritoras paraibanas do início do século XX

 

        

Ana Maria Coutinho Bernardo (UFPb)

 

“Era necessário deixar um pouco de lado os alfinetes e os bordados que impregnavam a vida feminina e tentar tecer outros rendados históricos em busca de certos ideais.”

(Elizabeth Siqueira)

 

 

 

 Em julho de 2000, no 9º Encontro da Rede Feminista Norte e Nordeste de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher e Relações de Gênero (REDOR), em Teresina – PI, apresentei o trabalho Gênero e Literatura Infantil: Representação da Mulher nos Contos de Fadas, desejando aprofundar os estudos sobre A Mulher na Literatura. Nas pesquisas sobre a presença da mulher na literatura nordestina, apresentadas no GT: Gênero e Literatura, senti a total ausência das escritoras da nossa terra. Seria possível que as mulheres paraibanas não tivessem uma produção literária? Com essa interrogação, voltei à Paraíba interessada em iniciar um levantamento, visando identificar as nossas escritoras do início do século XX. Assim surgiu esta pesquisa, como lembra Zahidé Lupinacci Muzart: “Como em todas as pesquisas, uma interrogação gerou a procura por essa parcela esquecida da literatura brasileira e tenta cobrir este vazio” (MUZART, 1999: 17).

Nessa perspectiva, este trabalho tem por objetivo trazer ao público contemporâneo as escritoras que foram esquecidas na historiografia literária paraibana. O texto está dividido em duas partes: na primeira, faremos uma apresentação das biografias de algumas pioneiras, mostrando a presença e participação feminina na literatura paraibana; na segunda, analisamos, brevemente, à luz da categoria de Gênero a produção literária de duas escritoras.

Num olhar interdisciplinar, esse estudo se propõe a fazer uma articulação entre Literatura e a História da Paraíba, resgatando, juntamente com a produção literária dessas escritoras, a sua participação na vida social e política. Certamente não é por acaso que as primeiras escritoras paraibanas são também as primeiras professoras, contribuindo significativamente para a História da Educação da Paraíba.

No início do século XX a Parahyba do Norte, apresentava inúmeras modificações a exemplo de outras cidades do Nordeste, como Recife: “uma época de efervescência, com a intesificação da urbanização, a industrialização crescente, que provoca a transformação da economia, antes essencialmente agrária (...).É a época de uma imprensa diária, da abertura de cursos para moças, da migração das grandes famílias da aristocracia canavieira do campo para a cidade, onde a casa-grande e a senzala se tornam o sobrado e o mocambo,para lembrar Gilberto Freyre, bem como do aparecimento de uma classe média. É a época em que se fragiliza a dicotomia espaço público e espaço privado, com a possibilidade da interação entre um e outro, o que favorece atuação das mulheres fora do domínio do lar” (Luzilá Gonçalves Ferreira, 1999:127)..

As diversas modificações na área política, econômica e social, repercutem nos estilos de vida do universo feminino. As mulheres entram no espaço público, anunciando que são sujeitos da História, para lembrar Michelle Perrot. A este propósito, de acordo com as pesquisas de Luzilá Ferreira Gonçalves, o espaço público é classificado em três subespaços. São eles: espaço comum, que concerne à circulação e à expressão, o espaço realmente público, que concerne à discussão e o espaço político da decisão. As mulheres brasileiras do início do século XX, que conseguem, de algum modo, se lançar no espaço público, estariam apenas nos dois primeiros subespaços, aqueles que concernem à circulação e à expressão e o que concerne à discussão, sendo-lhes tacitamente vedado o espaço político da decisão.

Nessa direção, na luta das mulheres em prol da cidadania e feminismo, a Imprensa desempenha um papel capital, enquanto único espaço de expressão possível. Tomando como fonte o que elas escreviam na imprensa local, sobretudo nos jornais A União, O Educador e a Revista Era Nova, que aborda a década de vinte como uma época marcada pela transitoriedade, pelo conflito entre o tradicional e o moderno, que então se evidencia principalmente nas discussões sobre as mudanças nas condutas femininas, a medida em que as mulheres ocupam mais intensamente espaços públicos, sendo freqüentemente nomeadas como signos de ameaça a ordem social. A este propósito, esclarece Alômia Abrantes da Silva:

“Rostos, corpos, gestos, experiências esculpidas pela feminização impregnam a cidade como signos da modernidade, signos de outros jeitos de viver, outros modos, outras estéticas, compondo assim aos olhos da cidade um espetáculo que encerra simultaneamente a sedução e o horror, e que diariamente ganha visibilidade na tramas registradas pela imprensa, permitindo-nos entrever o jogo destas sensações na construção do feminino como ameaça (Alômia Silva, 2000: 28).

A crítica feminista é de algum modo revisionista. Além disso, o estudo da mulher como escritora, e seus tópicos são a história, os estilos, os temas, os gêneros e as estruturas dos escritos de mulheres; a psicodinâmica da criatividade feminina; a trajetória da carreira feminina individual ou coletiva, e a evolução e as leis de uma tradição literária de mulheres (Showalter, 1994: 29).

A literatura sempre caminha articulada com o momento histórico, refletindo sua ideologia, quer na adesão ao pensamento dominante, quer contestando a voz corrente e as tendências em voga. A partir das últimas décadas do século XIX, floresceu no Brasil uma fecundíssima literatura de autoria de mulheres, a grande maioria delas hoje totalmente esquecidas nas camadas do tempo (Luzilá Gonçalves Ferreira, 1999).

 

 

ESCRITORAS PARAIBANAS: Mulheres Fortes, sim Senhor!

        

Na Paraíba, como em todo o Nordeste e no país, a literatura feminina somente começa a ser visível no início do século XX, como esclarece Zahidé Muzart: “Ainda que singulares e produtivas, nossas escritoras de antes, sobretudo as do século XIX, foram sistematicamente excluídas do cânone literário, que, é claro, forjado unicamente pela crítica e pela historiografia masculinas” (MUZART, 1999: 18).

Embora os livros de História da Paraíba não citem a presença e participação das mulheres no contexto dos anos vinte, e, ainda hoje desconhecidas, as mulheres na Paraíba foram presença constante, principalmente nos jornais, publicando crônicas, poesias, contos. Como esclarece Maria José Motta Viana:

“O veio das memórias e autobiografias permanece quase inexplorado. Esta importante fonte de informação sobre a vivência da mulher, sobre a edificação de seu perfil como sujeito ativo numa sociedade, inexplicavelemnte, só agora parece despertar a atenção” (Maria José Viana,1991). Nessa direção, buscando contribuir para o resgate das esquecidas escritoras da Paraíba, vejamos a biografia de algumas pioneiras que sempre existiram:

 

         BIOGRAFIAS DE ALGUMAS ESCRITORAS DA PARAÍBA

 

Anayde Beiriz

Anayde Beiriz nasceu no dia 18 de fevereiro de 1905, em João Pessoa. Sendo seus pais José da Costa Beiriz e Maria Augusta de Azevedo. Estudou na escola Normal Oficial do Estado, onde recebeu seu diploma de professora em 1922. Lecionou em uma colônia de pescadores, em Cabedelo, durante o dia ensinava as crianças e a noite aos adultos. Aos 20 anos, ganha o concurso de beleza, promovido pelo Correio da Manhã, como a mais bela paraibana em 1925. Em 1927, habilitou-se em datilografia, na Escola Rimington, na primeira turma mista da conceituada Escola. Poeta, escreveu várias poesias, que foram publicadas na Revista ERA NOVA. Foi noiva do bacharel João Dantas. Foi enterrada como mendiga no Cemitério Santo Amaro, Certidão de Óbito Nº2585. Seu resgate se deu 50 anos depois pelo historiador José Joffily. Faleceu no dia 22 de outubro de 1930.

        

Adamantina Neves

 

Adamantina Neves, nasceu em João Pessoa no dia 26 de setembro de 1905. Filha de Arthur Jader de Carvalho Neves e Maria Gomes de Carvalho Neves, é a primeira filha de uma prole de 10 irmãos. Desde os 06 anos de idade declama,por influência de sua tia Fininha. Estudou na escola Normal Oficial do estado, onde recebeu o diploma de professora. Foi professora de várias gerações: da escola Santa Rosário ao Grupo escolar Epitácio Pessoa no Jardim de Infância sua maior paixão. Entre seus alunos podemos citar pessoas como Dr. Odilon Ribeiro Coutinho, a deputada Lúcia Braga, o deputado José Clerot, o prefeito Jader Pimentel, o jornalista e escritor Luiz Augusto Crispim, Dr. Everaldo Soares Júnior, o jornalista e escritor Otávio Sintônio Pinto e muitos outros alunos. Sua juventude foi marcada com vários fatos, como por exemplo: o seu apoio a Campanha de João Pessoa, foi liberal de corpo e alma. Para Adamantina o Presidente João Pessoa foi um ídolo e continua sendo. Suas obras: “Janelas” e “Portas Abertas” e “Folhas de Portas”, livro de poesias. Faleceu em 05 de janeiro de 2000.

 

Apolônia Amorim

 

         Apolônia Amorim nasceu em Barra de Santana, Cabaceiras, em 09 de fevereiro de 1904. Professora participou ativamente das Campanhas Cívicas, inclusive o movimento popular de apoio a atuação de João Pessoa, em 1930. Além de participar no movimento da aliança Liberal e na Intentona de 35, no repúdio à Lei da Segurança Nacional e na fundação do Comitê Clara Camarão, em Campina sob sua direção. Contribui com vários artigos de cunho político e social nos Jornal “A UNIÃO” e “A IMPRENSA”, na Página feminina. Faleceu no Rio de Janeiro em 1949.

 

Ambrosina Magalhães

 

Ambrosina Magalhães nasceu em 1860. A atuação de Ambrosina M. Carneiro da Cunha na poesia paraibana do século XIX está registrada a partir do poema “Nas Margens do Capibaribe”, publicado no jornal liberal Paraybano em dezembro de 1880. Com vinte anos de idade, Ambrosina já demonstra uma simpatia em defesa do feminismo, não só por assumir sua vocação poética, como por de ser uma das poucas mulheres a entrar, em 1881, na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Seus poemas transitam entre “Romantismo e Simbolismo”. Deste último estilo é o soneto “Noetivago”. “Já vai bem alta à noite. E sobre o lago manso / Finíssimo lençol de gaze cor de poeta / Vão dois cisnes boiando um suave remanso / Enquanto vai passando a doce serenata”. Apesar de uma intelectualidade e participação dinâmica na imprensa, Ambrosina nunca publicou livro.

 

Albertina Correia Lima

 

Albertina Correia, filha de Lindolfo José Correia das Neves. Advogada. Foi professora por muito tempo, destacando-se entre seus alunos Oris Barbosa. Bacharel em Direito pela Faculdade do recife, diplomada em 1931. Contribuiu com vários artigos na Revista ERA NOVA, e nos jornais “A UNIÃO” e “A IMPRENSA”, como também, escrveu vários artigos nas revistas do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, onde ingressou em abril de 1938,além de fazer parte da Associação Paraybana Pelo Progresso Feminino no ano de 1933, onde possuía o cargo de oradora. Albertina sempre demonstrou seu interesse pela emanciapção da mulher. Autora do livro”João da Mata” (biografia). Faleceu em 18 de março de 1975.

 

Alice Azevedo Monteiro

 

Alice Azevedo, professora e jornalista. Notável educadora. Contribuiu com vários artigos e poesias na imprensa da capital, além de participar ativamente na Associação Paraybana Pelo Progresso Feminino no ano de 1933, onde possuía o cargo de secretária. Seus artigos de cunho feministas foram publicados nos jornais A UNIÃO e A IMPRENSA. Foi sócia efetiva no conceituado Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, no dia 05 de junho de 1936. Em reconhecimento dos bons serviços prestados à educação da mocidade pessoense, a Prefeitura da cidade de João Pessoa deu seu nome a uma das ruas centrais da capital paraibana.

 

Catarina de Moura

 

Catarina de Moura Amsteim nasceu no dia 20 de dezembro de 1882, nesta Capital. Foram seus pais Misaed do Rego Moura e Francisca Rodrigues Chaves Moura. Fez seus estudos primários e secundários na Escola Normal Oficial, onde recebeu o diploma de professora normalista, em 1902. feito o curso de preparatórios no Liceu Paraibano, matriculou-se em 1908, na Faculdade de Direito do recife, de onde saiu formada e laureada, em 1912, obtendo também o prêmio de viagem à Europa. Como quartanista de Direito, advogou no crime, na cidade de Pau d’alho, em Pernambuco. Em 1913, no Governo Castro Pinto, fez conferênciapúblicas, no Teatro Santa Rosa, sobre “Direitos da Mulher” e escreveu, no jornal “A UNIÃO”, crônica assinada como pseudônimo de Paraguaçu. Na escola Normal desta Capital ensinou como professora,as cadeiras de Português, Desenho, Francês e História da Civilização, sendo em 1917, nomeada professora efetiva da cadeira de Português.

 

 

Francisca Rodrigues Moura

 

Francisca Moura, nasceu na capital da Província da Paraíba, no dia 02 de agosto de 1860. Filha de Francisco José Rodrigues Chaves e Catarina de Almeida Rodrigues Chaves. Fez seus estudos primários nas escolas públicas desta capital e nos cursos particulares Veloso e Francisco Gonçalves de Medeiros.Os estudos secundários lhe foram ministrados, particularmente, pelo professor Joaquim Antônio Marques, educador doLiceu Paraibano, visto como naquele tempo, neste estabelecimento, só eram admitidos alunos do sexo masculino. Só mais tarde, quando já era viúva, é que se abriu a escola Normal Oficial do estado, onde recebeu o diploma de professora, no ano de 1890. Em 1894, foi nbomeada professora efetiva da Escola Normal. Durante mais de meio século exerceu o magistério particular. O colégio Francisca Moura foi muito freqüentado. Escreveu as seguintes obras: “Compêndio de Geografia” e “Pontos de Português”, contendo o programa completo do ensino da matéria na Escola Normal, programa que fora elaborado pelo Catedrático Dr. Maximiano José Inojosa Varejão. Faleceu no dia 02 de fevereiro de 1942.

 

Isabel Iracema Feijó da Silveira

 

Iracema Feijó, nasceu no dia 25 de dezembro de 1893, na cidade de João Pessoa, sendo seus pais Emídio de Oliveira e Maria Carolina de Lima Feijó. Fez seus estudos primários na Escola pública da professora dona Maria Amélia Cavalcante de Avelar e os secundários na escola Normal do Estado, onde recebeu o diploma de professora, no dia 26 de março de 1908. Em visita Aliança Liberal a santa Rita, em fevereiro de 1930, fez o discurso de saudação. Foi colaboradora em vários jornais como: A União e A Imprensa na Página Feminina, nas revistas Era Nova, Manaíra e Almanaque, desta capital, do Rio de janeiro e dos Estados vizinhos, que estampam suas poesias. Iracema foi a primeira mulher a ter o título de eleitor em 1929 e a votar noEstado da Paraíba em 1930.

 

Iracema Marinheiro

 

Iracema Marinheiro nasceu em santa Rita, em 22 de outubro de 1911. Radicada por muitos anos em Campina Grande passa a viver no Rio de Janeiro. Contribuiu com imprensa paraibana escrevendo vários artigos e poesias no Almanaque da Paraíba, Revista Era Nova e Ilustração.Publicou um livro de poesia, Meu Evangelho, o qual recolhe sonetos ao gosto romântico, escritos na juventude e poemas de seus dias atuais de missionária espírita. Ao que tudo indica não mais retornou à Paraíba, pois sua produção cessou em 1933.

 

Lylia Guedes

 

Lylia Guedes, nasceu no dia 14 de novembro de 1900, em Nova Cruz Estado do Rio Grande do Norte, mas desde dos três meses, residiu nesta Capital. Foram seus pais Terencio Guedes e Maria Amélia Guedes, com os quais estudou as primeiras letras. Iniciou os estudos secundários no curso de Francisca Moura, nesta Capital.Em março de 1918, matriculou-se na Faculdade de Direito do recife, onde colou grau de bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, no dia 16 de dezembro de 1922. Foi sócia fundadora da Associação Paraibana Pelo Progresso Feminino. No dia 09 de julho de 1939, entrou para o quadro social do Instituto Histórico Geográfico Paraibano dos Jornais “A União” e a “Imprensa”. Os jornais fazem menção constante como Advogada, no Fórum da capital, sendo a primeira mulher na Paraíba a fazer parte do Instituto dos Advogados, hoje, Ordem dos Advigados do Brasil – OAB, como secretária. Proferiu palestra sobre o Bicentenário de D. João VI, entre 1965/75. Faleceu entre o período 1965/75.

 

Olivina Olívia Carneiro da Cunha

 

Olivina Carneiro, nasceu no dia 26 de maio de 1892, em João Pessoa.Filha do Sr. Silvino Carneiro da Cunha, Barão do Abihay. No ano de 1904 diplomou-se pela Escola Normal Oficial da Paraíba. Desde cedo mostrou seu interesse pelo magistério dedicando-lhe grande parte de sua vida e mais tarde também as letras. A poeta colaborou em vários jornais e revista da Paraíba.Na década de 30, juntamente com outras adeptas a emancipação feminina fundam a Associação Paraibana Pelo Progresso Feminino, onde sua metade era licenciar as mulheres em busca dos seus direitos como ser pensante e atuante na sociedade. No dia 06 de abril de 1938 entra para o quadro de sócios do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano e do IPGH. Das suas colaborações podemos destacar os jornais “A União” e “A Imprensa”, na coluna Página Feminina, além da revista “Era Nova”, “Manaíra”, entre outros. Olivina faleceu no dia 12 de março de 1977, em João Pessoa.

 

         EUDÉSIA E ANALICE: mulheres que teceram outros rendados históricos em busca da emancipação feminina na Paraíba

 

          Essas autoras apontam caminhos seguros para a emancipação feminina. Através do estudo, da instrução e do trabalho, a mulher poderia conquistar uma maior independência em relação à família e à sociedade.

Quando lançamos um olhar sobre a trajetória dos passos percorridos por essas escritoras na luta por seus direitos como o de estudar e atuar no espaço público, constatamos como essa trajetória foi difícil.

Sabemos que toda a autonomia feminina hoje é resultado de todo um processo histórico de luta de mulheres anônimas do século XIX, que muitas vezes pagaram um preço alto pela sua ousadia.

 Nessa perspectiva, nós, paraibanas, temos uma gratidão histórica com as primeiras escritoras, pioneiras da literatura feminina na Paraíba, que, reivindicando seus direitos, abriram o caminho das conquistas para as mulheres de hoje.

Jornalistas, professoras, historiadoras, médicas, engenheiras, advogadas, psicólogas, profissionais em geral, todas devemos muito a essas pioneiras que alcançaram com muita ousadia novos espaços no mundo da comunicação, marcando presenças, construindo uma nova história e um novo jeito do ser feminino através da literatura e da imprensa, como esclarece Michelle Perrot:

 

 Sem o poder, como as mulheres ganharam influência nas redes durante tanto tempo dominadas pelos homens? Primeiro pela correspondência, depois pela literatura e, por fim, pela imprensa” (Perrot, 1998: 59).

 

Desse modo as mulheres através do exercício dos diários íntimos, das correspondências, foram conquistando espaços nas redes de poder até então dominadas pelos homens como a literatura e a imprensa.

Decorre daí a relevância dos estudos sobre a mulher do início século passado, objetivando superar a figura estereotipada, alheia às lutas emancipatórias, uma vez que as pesquisas vêm demonstrando que havia grupos emergentes em diversos pontos do Brasil e do mundo que se movimentavam em grupo de objetivos comuns, na busca de realizações de ideais nacionalistas, políticos e sociais.

 

Como lembra Elizabeth Siqueira:

 

“Não se podiam implantar valores novos sem que os antigos fossem questionados. Não se podia penetrar em um mundo de dominação masculina sem reassumi-lo para que fosse modificado. Era necessário deixar um pouco de lado os alfinetes e os bordados que impregnavam a vida feminina e tentar tecer outros rendados históricos em busca de certos ideais” (Siqueira, 1995: 34).

 

 Nessa direção, Eudésia Vieira utiliza o espaço da imprensa ora para falar do cotidiano, ora para questionar o papel da mulher na sociedade, exigindo direitos, protestando contra injustiças e conclamando as leitoras à ação. Vejamos, inicialmente, sua biografia.

 

Eudésia Vieira

 

Eudésia de Carvalho Vieira, nasceu no dia 08 de abril de 1894, na povoação de Livramento, no município de Santa Rita, sendo seus pais Pedro Celestino Vieira e Rita Filomena de Carvalho Vieira. Fez seus estudos primários na Escola particular de D. Isabel Cavalcanti Monteiro nesta Capital. Recebeu o diploma de professora pública pela Escola Normal Oficial, em 15 de junho de 1911, sendo a oradora da turma. Iniciou a carreira do magistério dando aulas particulares, somente em 1915, através de concurso público, ingressou no magistério oficial. Foi designada para ministrar aulas em Serraria, mais tarde transferiu-se para Santa Rita e, finalmente para a capital do Estado. Casou-se em 1917, com José Taciano da Fonseca Jardim, nascendo desse casamento 14 filhos, dos quais apenas cinco sobreviveram, João Batista, Leôncio, Marcília Celeste e Maria Brasil. Foi professora pública em várias escolas primárias do Estado. Já casada decidiu ser médica, contrariando a vontade do marido e enfrentando todos os obstáculos e preconceitos da época, preparou-se e submeteu-se às provas da Faculdade. Eudésia foi à única mulher numa turma de homens a receber o grau de doutora e a primeira paraibana a conquistar o título, pela Faculdade de Medicina de Recife, ali recebeu o diploma de doutora em ciências médicas e cirúrgicas, por ter sido a única que defendeu Tese (Síndrome de Schickelé), dentre os 52 diplomados naquele ano. Aqui em João Pessoa, instalou um consultório em sua residência, à rua Duque de Caxias, passou a atender e dedicar-se à sua clientela, fazendo da medicina o seu apostolado. Foi Assistente Social da Penitenciária Modelo, sendo muito amada pelos presidiários. Professora, médica, jornalista e poetisa. Eis a mulher Eudésia Vieira. Ingressou no Instituto Histórico e Geográfico Paraibano em 3 de junho de 1922, onde exerceu o cargo de suplente de 1o Secretário no período de 1925-26. Como professora se preocupou muito com a qualidade do livro didático adotado nas Escolas Primárias e, com muito sacrifício, conseguiu elaborar e editar dois livros e adotá-los nas Escolas Oficias do Estado. Como médica, dedicou-se com extremado desvelo às clientes, orientando-as, principalmente na questão do pré-natal, numa época que este exame era totalmente desconhecido pela maioria das mulheres. Como escritora, jornalista e poetisa, foi muito atuante. Colaborou na Revista ERA NOVA, nos jornais, O NORTE, A UNIÃO, A IMPRENSA, A GAZETA DO RECIFE e em NOVELAR, jornal da Festa das Neves. Seu primeiro poema foi publicado quando tinha 14 anos. Realizou muitas Conferencias que, posteriormente, foram enfeixadas em livros. Em 1974, foi convidada para ocupar a Cadeira nº 20 da Academia Fluminense de Letras, onde seu patrono era Alberto Torres; infelizmente, por motivo de saúde não aceitou o convite. Eudésia Vieira, considerava fato marcante na sua vida a conversão ao Catolicismo. Depois desse acontecimento, tornou-se devota de Nossa Senhora de Fátima, a quem atribuiu o milagre de seu salvamento, em 1943, quando o navio em que viajava do Rio de Janeiro para João Pessoa, foi torpedeado por um submarino Alemão nas Costas da Bahia. Em 1974 recebeu o título de cidadã Benemérita da Paraíba e, quando faleceu, foi homenageada com seu nome dado a uma rua do Bairro dos Estados. Deixou publicados os seguintes trabalhos: “Pontos de História do Brasil” (didático); “Cirus e Nimbos”; (versos); “A Minha Conversão e Dom Ulrico Sonntag”; “Síndrome de Schickelé”; (Tese de doutorado); Terra dos Tabajaras (didático) - 1955; Mistério de Fátima - 1952; Conferência - 1948; Dois Episódios de uma Vida; Poema do Sentenciado; O Torpedeamento do Afonso Pena - 1951; Inéditos: “Mortos que Falam”; “A Mãe Cristã e a Educação Eucarística que Ha de Dar aos Filhos”, Além de proferir palestra em sessão solene sobre a Emancipação Política do Brasil. Eudésia exerceu cargo de suplente de 1ª Secretário, no período de 1925-26 no IHGP. Entre o período de 1956/59 assumiu o cargo de Oradora e entre 1959/62 assumiu a Comissão de Contas desta Instituição. Eudésia faleceu em João Pessoa, no dia 16 de julho de 1981.

 

           

 

Vejamos alguns trechos de artigos, publicado na Revista Era Nova (1922):

 

 

“A mulher é o ponto affirmativo na natureza. Tudo creava Jeovaha: o espaço infinito onde giram myriades de soes; os elementos geradores e invencíveis; os vegetaes magníficos de maravilhosa belleza e, enfim, os animais admiráveis na sua organização microscópica ou gigantesca, desde os infusorios imperceotiveis aos collossaes e poderosos cataceos.

 

Percebemos a concepção positiva da mulher, presença forte da religiosidade, a autora aponta conhecimento sobre a organização dos animais.

Quanto as primeiras relações do universo masculino e feminino ela apresenta como relações de poder igualitárias:

 

(...) Muito tempo divagam os dois pelas florestas fecundas (...). O amôr era reciprocamente partilhado, Eva bem a terna companheira de Adão.

 

Entretanto, essa configuração já não era tão fácil de encontrar:

 

“(...) Os maridos sinceros e leaes, que guardam uma palavra de bondade para aquella a quem dão o doce qualitativo de esposa, são pérolas de grande preço que se não distinguem facilmente nos mostruários de valor.

(...) O homem esqueceu que a mulher fora destinada a ser sua companheira, tornou-a sua escrava. Elle podia commetter muitas faltas, a menor leviandade por ella praticada merecia o castigo de Tântalo. A mulher permaneceu submissa.

(...) Mal remunerada nos seus esforços, mal compreendida nas suas aspirações, mal satisfeita nos seus affectos, foi perdendo aquela docilidade e timidez de caráter sua divisa em outros tempos, e cançada de soffrer foi procurando se libertar do domínio do homem a quem ambicionava não como senhor, mas como amigo e companheiro, na posição primitiva que o bom Deus os collocara.”

 

No trecho acima fica claro a insatisfação da autora sobre a condição feminina. Assume sua rejeição para as distorções ideológicas que tornam as mulheres prisioneiras da moda e do luxo:

 

(...) Nos dias de hoje já não se póde aquilatar uma mulher pela outra. A maldade do homem fez que se dividissem em classes diferentes: há noticia da mulher “coquete” bem representada pela melindrosa actual. Esta creatura merecedora do rídculo da gente seria, se assemelha ás bonecas que servem para distrair crenças. É uma escrava da moda, do luxo. Sacrifica a saúde, a graça natural, a honra da família e a sua própria com insensatez reprochavel, só visando effeito; quer, custe o que custar, ser o ponto de convergência na sociedade em que priva.

 

Eudésia defende a mulher independente, lembrando a heroína francesa Joana d’Arc:

 

“Cultivam a literatura, praticam a equitação, ocupam-se dos problemas sociaes, interessam-se pelo progresso da sciencias e das artes, discutem assumptos religiosos e políticos, sem olvidar os outros deveres inherentes ao seu sexo. Em constituindo família, addicionam às suas práticas primitivas o desempenho da economia e medicina domestica, dando á pátria filhos robustos, cidadãos prestimosos, cuidando ainda em augmentar honrosamente o patrimônio dos posteros. É a mulher independente, sempre alvejada pela maledicência dos invejosos. A Egreja dá-nos o exemplo desse typo de mulher na pessoa admirável de Joan d ‘ Arc, a aldeã franceza.

 

 Fala também sobre a mulher, mãe de família:

 

“Admirável exemplo de virtudes christians. É a mulher votada ao sacrifício, que não se importa de morrer um pouco cada dia para ressuscitar gloriosa na pessoa dos filhos que lhes serão a coroa immortal na perpetuidade da espécie e dos costumes”.

“Os árduos labores da maternidade são uns entraves para a ventura completa da mulher, em desvirtuamento para a sua vida elegante, um caminho aberto para a quadra funesta da velhice”.

 

Apesar da austera formação religiosa, mesmo contrariando a Lei de Deus, Eudésia sinaliza a necessidade de evitar a maternidade:

 

“É preciso evitar a família, embora isto seja um remorso para a consciência bem formada, um crime detestável perante a lei de Deus”.

 

Identificamos um discurso que se rebela contra o papel “natural” que foi sempre destinado à mulher – o de esposa e mãe – o do confinamento à vida doméstica – e aponta um novo horizonte para além do espaço privado. Ao resgatarmos trechos das produções literárias de Eudésia Vieira, podemos identificar que, apesar da ausência desse nome na história literária da Paraíba, ela existiu e foi atuante, a seu modo, em sua época, juntamente, com outras escritoras como Analice de caldas Barros.

 

 

 

Analice de Caldas Barros

 

Analice Caldas, nasceu em Alogoa Nova, no dia 30 de outubro de 1891. Filha de Manoel Paulino Correia de Barros e Ana Salvina de Caldas Barros. Inteligente, concluído o curso primário, transferiu-se para JoãoPessoa, matriculou-se na Escola Normal em 1911, dedicou-se de imediato ao magistério, aos 20 anos. Cultora das letras contribuiu na imprensa local, na revista ERA NOVA tinha um “Álbum de Mlle. Analice Caldas”. Em 1936 foi admitida como sócia efetiva do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano. Idealizou a chamada Campanha dos Mil Reis Liberal, onde todos os paraibanos eram conclamados a ajudar o Governo do estado para adquirir munição destinada a sustentar a luta de Princesa. Juntou-se ao grupo idealista juntamente com Albertina Correia Lima, Lylia Guedes e fundam a Associação Paraibana Pelo Progresso Feminino que exerce uma incontestável liderança em prol da emancipação da mulher. Faleceu aos 54 anos, em um trágico acidente de avião, ocorrido em Lagoa Seca, Minas Gerais, no dia 15 de fevereiro de 1945.

 

Vejamos alguns trechos de um artigo desta escritora:

 

“Maio é o mez preferido, tenho toda simpathia por este mez, cantando como o mez das preces, das flores e da poesia, o que aliás não deixa de ser uma injustiça ao soutros mezes! A poesia existe em nós mesmos!

 Esta preferência me vem ao sabor das recordações da infância, é de certo o resultado de um colossal vidro de augmento com que analysamos ou recordamos os factos da meninice.

 

Falando um pouco dela mesma:

 

“Não sou das que facilmente se acomodam as exigências do momento”

 

O trecho acima expressa uma concepção de mulher inteligente, pensante, que fala o que nessa época devia ser silenciado, pela submissão que se exigia das mulheres.

Nesse sentido, tanto Analice Caldas como Eudésia Vieira abrem um espaço de fala, de expressão através do que publicam na imprensa. Elas apontam novos horizontes para outras possibilidades do ser-mulher da época, através das marcas femininas que deixaram nestes jornais.De acordo com os estudos de Rita Schmidt (1999), revisitar as produções literárias das mulheres, significa viabilizar novas interpretações/significações, contribuindo para outros saberes possíveis, advertindo:

“Sem prescindir da categoria mulher, com toda a sua carga de instabilidade semântica, e sem abrir mão da categoria de gênero,para articular práticas da experiência com estruturas de sentido em contextos que são sempre relacionais, buscamos, em nossas investigações, negociar entre a posição de um anti-essencialismo epistemológico e a de um essencialismo polítlico, estratégico para a própria revitalização da perspectiva teórico-crítica do feminismo (Rita Schmidt, 1999: 23).

Nessa perspectiva teórica, socializando as produções literárias das escritoras paraibanas, reforçamos o nosso compromisso com a construção de novos espaços para o nosso fazer/saber como sugere Rita Schimidt, uma vez que, inicialmente, esses jornais do Estado da Paraíba eram espaços exclusivamente destinados ao mundo masculino, de que as mulheres vão lentamente conquistando e se apropriando. Não sem dificuldade.

Portanto, a presença e a participação da mulher na literatura paraibana no início do século XX mostrou-se bastante significativa no que diz respeito à socialização das idéias feministas. Mesmo assim, esse prazer da escrita continuava sendo um prazer censurado.

 

 

FONTES E BIBLIOGRAFIA

 

INSTITUIÇÕES DE PESQUISA:

 

Biblioteca Paraibana – Biblioteca Central da Universidade Federal da Paraíba – João Pessoa (PB)

Biblioteca Pública do Estado da Paraíba – Espaço Cultural José Lins do Rego – João Pessoa (PB)

Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba IHGP – João Pessoa (PB)

           

FONTES:

Periódicos (jornais e revista):

O Educador, Parahyba do Norte, de 1921 a 1922, circulação quinzenal

Era Nova, Parahyba do Norte, de 1921 a 1925, circulação quinzenal

Jornal O Norte, João Pessoa, quinta-feira, 12 de janeiro de 2000.

Jornal “A União”, João Pessoa de 1930/1940.

Revista ERA NOVA, Parayba do Norte, Imprensa Oficial – 1921/1926.

Revista Manaíra João Pessoa, abril de 1940. Nº 06 pág. 04. Memorial do IHGP Edição Comemorativa dos 90 anos de Fundação 1905/1995. J.P. 1995.

 

 

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

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