Virginia Woolf: a androginia como desconstrução

                                                                                                                                     Eduardo de Assis Duarte

UFMG

Foi, salvo engano, Toril Moi (1988), em seu clássico estudo sobre a teoria literária feminista[1], quem primeiro atentou para o perfil desconstrutor das postulações de Virginia Woolf, tanto no que diz respeito à crítica dos valores e preconceitos estabelecidos a respeito das mulheres e tidos como verdade absoluta e universal, quanto no que toca à própria distinção entre masculino e feminino como pólos opostos e socialmente hierarquizados. Contrariando leituras feministas anteriores, em especial a de Elaine Showalter, Toril Moi destaca positivamente o constante deslocamento do sujeito nos escritos de Woolf – as “perspectivas móveis e pluralistas” (p. 22) – notando que tal procedimento implica a recusa de um eu identificado ao humanismo liberal, conseqüentemente à doxa masculina e patriarcal. Moi invoca a teoria de Derrida para assinalar o “estilo desconstrutor” adotado pela autora de Orlando, que “expõe a natureza dual do discurso”, sempre infensa ao “significado transcendental” (p. 23) questionado pela desconstrução.

Em seguida, a pesquisadora assinala a “recusa do essencialismo” já presente nos textos de Woolf do início do século XX, caracterizando-a como precursora do feminismo desconstrucionista, tal como postulado por Julia Kristeva a partir dos anos 70, e fundado na negação da dicotomia metafísica entre masculino e feminino. Segundo Moi, a denúncia de Woolf a respeito da natureza “enganosa” das identidades de gênero, “antecipa em sessenta anos” (p. 27) a posição de Kristeva. E acrescenta que “uma combinação das teorias de Kristeva e Derrida encerraria a promessa de futuras interpretações feministas de Woolf” (p. 29), a quem chama de “escritora feminista genial” e “grande mãe e irmã” (p. 32). Moi conclui seu estudo manifestando a esperança de que novas leituras se façam da escritora inglesa, a fim de evidenciar o pioneirismo e a contemporaneidade de seus escritos, marcados, já naquele tempo, pelo que se afirmará mais tarde como descentramento do sujeito e como abalo das hierarquias presentes no discurso da metafísica ocidental e nas práticas sociais e políticas nela ancoradas.

De fato, já na própria arquitetura de Um teto todo seu[2] (1985) – texto derivado de duas palestras proferidas em 1928 para platéias femininas – deparamo-nos com a disposição da autora em recusar o formato tradicional de exposições desse tipo: Woolf afirma que, em se tratando do tema mulher e literatura, “jamais conseguiria chegar a uma conclusão” (1985: 7), nem muito menos deixar com as jovens “uma pepita de verdade pura” (1985: 8):

 

Quando um tema é altamente controvertido – e assim é qualquer questão sobre o sexo [leia-se a mulher] -, não se pode pretender dizer a verdade. Pode-se apenas mostrar como se chegou a uma opinião que de fato se tenha. Pode-se apenas dar à platéia a oportunidade de tirar suas próprias conclusões, enquanto observa as limitações, os preconceitos e as idiossincrasias do orador. É provável que a ficção contenha aqui mais veracidade que fato. [...] Mentiras fluirão de meus lábios, mas talvez possa haver alguma verdade no meio delas; cabe a vocês buscarem essa verdade e decidirem se vale à pena conservar alguma porção dela. Caso contrário, naturalmente jogarão tudo na cesta de papéis e esquecerão do assunto. (1985: 8-9, grifos nossos)

 

De início, vale ressaltar a androginia textual praticada pela autora. Valendo-se de “todas as liberdades e licenças de um romancista”, ela trafega da conferência para o ensaio e deste para a ficção. Situa-se, pois, naquela tradição ensaística que não descarta a subjetividade e a fantasia. Woolf elege entre seus precursores Charles Lamb, cujo estilo elogia pelo “estalo relampejante de gênio”, que deixa os textos “falhos e imperfeitos, mas estrelados de poesia.”(1985: 11-12) A passagem explicita o projeto condutor de Um teto todo seu e contém quase uma poética do ensaio, segundo sua concepção.

A androginia textual, ao recusar o tom peremptório e a exortação inflamada, ao mesmo tempo em que coloca como “problema não solucionado” e “altamente controvertido” a questão da “verdadeira natureza da mulher” (1985: 8), desconstrói tanto a forma da conferência e da dissertação científicas quanto a crença numa verdade absoluta e universal a respeito de seu sexo. Ao substituir esta última pela verdade provisória e localizada, inscrita como opinião, pretende colocar sob suspeita não apenas as convicções da platéia, mas igualmente os discursos masculinos com os quais irá em seguida polemizar.

A “verdadeira natureza da mulher” é desviada do campo das certezas dogmáticas para a arena da controvérsia. Assim fazendo, a palestrante-ensaísta quer trazer a platéia para o palco da discussão, atribuindo a ela a incumbência de formalizar um sentido para suas reflexões. O pretenso valor de verdade de seu discurso sai da esfera autoral para situar-se no campo da leitura de cada um. Caberá aos receptores superar a atitude própria aos ouvintes do sermão, para, entre possíveis verdades e mentiras, idiossincrasias e preconceitos da oradora, construir suas próprias conclusões. O que se tem, pois, é o descentramento avant la lettre do sujeito autoral, cuja verdade não é dada a priori, mas deve, necessariamente, ser compartilhada com o ouvinte-leitor que, nesse movimento, ascende, de modo isônomo, ao panteão da autoria.

Essa postura logo se desdobra e se amplia. Woolf encara as jovens que a escutam como escritoras em potencial e, ato contínuo, lança a proposição básica da conferência. Mal disfarçada em “aspecto insignificante”, a tese surge com todas as letras: a mulher precisa de ter dinheiro e um teto todo seu se pretende mesmo escrever ficção. (1985: 8, grifos nossos) A ensaísta desloca o tema da “verdadeira natureza da mulher” para o da “condição feminina”, entendida como modus vivendi no qual o universo estático da natureza, concebido metafisicamente, cede lugar à dinâmica das relações sociais.

A exigência de um quarto próprio e de uma renda anual emoldura a denúncia da pobreza das mulheres, de seu parco acesso à educação e ao mercado de trabalho. A mulher inglesa, alijada por lei da posse de bens materiais até 1881, ganha no texto de Woolf um retrato sem retoques: restrita ao mundo doméstico e à procriação, alheia aos negócios e à esfera pública, não acumulava bens, nem deixava heranças. “Fazer fortuna e ter treze filhos... nenhum ser humano suportaria isso” (1985: 31), pondera.

Ao lado da submissão/exploração econômica, a exclusão cultural. Referindo-se implicitamente ao postulado marxista da “determinação em última instância do fator econômico”, Woolf articula a perspectiva de gênero com a de classe social. Entende a formação cultural como resultado de investimentos, aponta os dízimos e doações do passado e as fellowships do presente como responsáveis pela existência da Universidade. Ao enfatizar a relação estreita entre a liberdade individual e a renda, desnuda a operação do sistema capitalista, reflete sobre “o efeito que a pobreza exerce na mente”, arriscando afirmar que “não se pode pensar bem, amar bem, dormir bem, quando não se jantou bem.” (1985: 26)  E prossegue:

 

Um gênio como o de Shakespeare não nasce entre pessoas trabalhadoras, sem instrução e humildes. Não nasceu na Inglaterra entre os saxões e os bretões. Não nasce hoje nas classes operárias. Como então poderia ter nascido entre mulheres, cujo trabalho começava, de acordo com o professor Trevelyan, quase antes de largarem as bonecas, que eram forçadas a ele por seus pais e presas a ele por todo o poder da lei e dos costumes? Não obstante, alguma espécie de talento deve ter existido entre as mulheres, como deve ter existido entre as classes operárias. (1985: 64, grifos nossos)

 

Além de equiparar o trabalho doméstico ao trabalho operário, a escritora se apropria de uma afirmação corrente, feita talvez por um “bispo ou cavalheiro já falecido”, de que jamais mulher alguma alcançaria o gênio de Shakespeare. E se apropria justamente para inverter o sentido misógino nela vigente. Eleitos como pressupostos básicos para a atividade literária, a renda e a propriedade surgem não como dádivas da natureza, mas como determinantes primordiais propiciadores da instrução e do quarto próprio, de preferência com chave na porta. O essencialismo responsável pelo confinamento da mulher à esfera doméstica vê-se questionado em seus fundamentos. O talento criador não é exclusivo dos homens bem postos na escala social, mas os meios para desenvolvê-lo, quase sempre, sim. Logo, o imperativo de se ter um teto todo seu vincula-se não apenas ao aprimoramento de uma vocação artística. Mais que isto, diz respeito à própria afirmação da mulher com sujeito de sua história.

A tese do quarto próprio desenvolve-se em vários desdobramentos. A escritora responsabiliza a pobreza a que estiveram relegadas suas antepassadas pela debilidade da tradição literária feminina na Inglaterra. E, neste ponto, antecipa Simone de Beauvoir ao apontar a ausência de um sujeito feminino voltado para a escrita de sua história. Diante das vidas e obras de mulheres do passado relatadas por homens, afirma, num raro arroubo peremptório: “a mulher jamais escreve sua própria vida e raramente mantém um diário – existe apenas um punhado de cartas. Não deixou peças ou poemas pelos quais possamos julgá-la.” (1985: 59)

Neste instante, deixa clara a parcialidade e a insuficiência da historiografia então existente. Diante da constatação de que a Universidade e o Museu nada mais são do que espaços patriarcais, Woolf exorta as jovens estudantes a “reescreverem a história”, de modo a nela incluir o efetivo papel representado pelas mulheres. E, derridianamente, mas antes de Derrida, lança a indagação provocadora:

 

Mas por que não poderiam elas acrescentar um suplemento à história, dando-lhe, é claro, algum nome não conspícuo, de modo que as mulheres pudessem ali figurar sem impropriedade? Pois freqüentemente as percebemos de relance na vida dos grandes homens, despachadas logo para segundo plano. (1985: 60, grifo nosso)

 

Poder-se-ia até questionar a autenticidade deste suplemento de Woolf, vinculando-o mais à lógica do complemento, ou seja, àquele movimento de suprir uma falta ou complementar algo que se mantém incompleto, no caso, a história de seu país. Até este ponto, a autora estaria, portanto, dentro de uma estrutura metafísica de pensamento. Mas o argumento não se sustenta diante do perfil eminentemente masculino e excludente da história oficial. As prateleiras do Museu Britânico, naquele momento repletas de grandes feitos e de grandes homens, atestam o perfil suplementar e desconstrutor da proposta de uma historiografia centrada na participação feminina. Mais adiante, Woolf insiste na provocação ao se apropriar da biografia de Shakespeare a fim de suplementá-la com a presença de uma irmã fictícia, Judith. Tudo isto para concluir que, se Judith tivesse existido e, como o irmão, empregado seu talento para fazer teatro, terminaria seduzida por algum diretor, sem nunca ter posto os pés numa cena de verdade.[3]

Dentro da estratégia de desconstrução da doxa patriarcal, Virginia Woolf encara os indivíduos não como entidades rígidas e incólumes. Vislumbra-os, ao contrário, como seres moldados pela “grande máquina’ representada pela cidade. Londres é, então, inscrita como “oficina” e “verdadeira fundição” a dar “algum molde” às pessoas. Passa em seguida ao tema da memória cultural feminina para definir o Museu Britânico como outro “departamento da fábrica”(1985: 36), na medida em que este não só contém mas, sobretudo, constrói a narrativa da participação e do papel das mulheres na história das letras, das artes e da própria vida do país. Ao interpretar a cidade e o museu como fábricas de pessoas, conseqüentemente, de desejos e comportamentos, Woolf antecipa conceitos fundantes do Pós-estruturalismo, bem como do feminismo dos anos 80, a saber: a noção de “tecnologia sexual” de Michel Foucault, e o conceito de “tecnologia de gênero”, formulado por Teresa de Lauretis.

Resta, então, comparar a contribuição de homens e mulheres à história e à cultura a partir da materialidade das condições de vida de uns e de outros e, não, tomando como base construções metafísicas a respeito dos dois sexos. É o momento em que surge outro famoso corolário da tese que vincula a conformação da identidade feminina à renda e à propriedade. Trata-se da conhecida formulação da mulher figurar, no universo patriarcal, como “espelho do homem”:

 

Em todos esses séculos, as mulheres têm servido de espelhos dotados do mágico e delicioso poder de refletir a figura do homem com o dobro de seu tamanho natural. Sem esse poder, a Terra provavelmente seria pântano e selva. (...) Eis porque tanto Napoleão quanto Mussolini insistem tão enfaticamente na inferioridade das mulheres, pois, não fossem elas inferiores, eles deixariam de engrandecer-se. (1985: 48)

 

            A metáfora do espelho remete de início à passividade destinada historicamente à esposa que, segundo a concepção de Rousseau e de tantos outros, deve aguardar zelosa junto aos filhos a chegada triunfal do pater familias, para então cobri-lo de carinhos e distrações após a lida diária. Assim, a atividade masculina e externa surge em correlação direta com a atividade feminina e doméstica. Quanto menor e menos rentável esta última, maior mais produtiva a primeira. No entanto, a mulher entendida como espelho ampliado do homem remete a algo ainda mais profundo – ao próprio caráter relacional, portanto construído, das identidades de gênero. Assim, a metáfora ganha contornos de conceito filosófico: ser é relacionar-se, projetar-se no outro. Todavia, a reflexão de Woolf não se afasta da proposição política: se a identidade inexiste sem a alteridade, é preciso quebrar o absolutismo que dá para uns o topo da civilização e para outros o “pântano” e a “selva”.

Leitora e interlocutora de Freud, Virginia Woolf destaca a força do imaginário no comportamento social e conjugal. Ao caracterizar homens e mulheres como “criaturas de ilusão” (1985: 47), demonstra sua compreensão do ser humano como sujeito desejante, movido por pulsões e fantasias. E, ao se referir às “cotoveladas” e à “luta perpétua” (1985: 47) em que homens e mulheres se engalfinham, denuncia a idéia da inferioridade inata como estratégia patriarcal.

Apesar de, em alguns momentos, ceder à tentação de simplesmente reverter a hierarquia, seu discurso caminha para a desconstrução do binarismo que aprisiona os sexos em pólos opostos regidos por relações de poder. Vale-se para tanto, da idéia de androginia da mente, tomada de empréstimo a Coleridge, como suporte não apenas de seu apelo à cooperação e à complementaridade entre homem e mulher, mas para, sobretudo, destacar a aproximação e a convivência entre os extremos: a “planta da alma” (1985: 128) seria, nesta ordem, masculina e feminina nos homens e feminina e masculina nas mulheres. Quando esta fusão se dá, a mente torna-se “ressoante e porosa”, transmite “emoções sem empecilhos”, é “integralmente fertilizada e usa todas as suas faculdades”. E acrescenta:

 

É fatal ser um homem ou uma mulher, pura e simplesmente; é preciso ser masculinamente feminina ou femininamente masculino. (...) Alguma colaboração tem que ocorrer na mente entre a mulher e o homem antes que a arte da criação possa realizar-se. Algum casamento entre opostos precisa ser consumado. (...) É preciso haver liberdade e é preciso haver paz. (p. 136)

 

Mais uma vez, a escritora põe em prática a operação de questionamento a que pensadores da segunda metade do século XX batizaram como desconstrução. A androginia da mente faz com que os opostos se atraiam e se interpenetrem, assumindo cada um parte do que antes estava destinado ao outro. Dissolve-se, dessa forma, a barreira judicativa que antagoniza homens e mulheres. Antecipando o princípio de que “o pessoal é político”, a fala de Woolf se apropria de valores caros ao pensamento ocidental, como a liberdade e a paz, a fim de situá-los no âmbito das relações de gênero. No momento em que exorta homens e mulheres à colaboração mútua e à tolerância, está de fato clamando pelo fim da dominação masculina e do patriarcado que, “com exceção da neblina, parecia controlar tudo e mesmo assim estava com raiva” (1985: 46).

Assim, a androginia textual, que harmoniza ficção e ensaio, expressa na textualidade disruptora de Virginia Woolf todo um pensamento – o da androginia da mente – que, para ficarmos nos termos de Derrida (1967), “solicita” os sentidos da verdade patriarcal. Entendida derridianamente, essa solicitação vale por sua etimologia e literalmente “abala o todo” desse discurso. Ao corroer os alicerces da doxa falocêntrica, a androginia proposta pela autora antecipa em mais de meio século a différance, termo com que o filósofo emblematiza a desconstrução dos binarismos hierarquizantes e concede fundamento filosófico à pós-modernidade.



[1] MOI, Toril. Sexual/Textual politics: feminist literary theory. Valemo-nos da tradução espanhola: Teoría literaria feminista, trad. Amaia Bárcena. Madri: Cátedra, 1988, p. 15-32. As próximas citações da autora trarão apenas os números de página entre parênteses, logo após o trecho citado.

[2] . WOOLF, Virgínia. Um teto todo seu. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. Todas as citações são desta edição e trazem com os números de página entre parêntese logo após o trecho citado.

[3] . Como é sabido, a presença feminina era proibida no teatro elizabetano, sendo a profissão de ator exclusividade dos homens.